Cachoeira articulou compra de partido. Por intermédio de araponga, contraventor ofereceu R$ 200 mil pelo PRTB de Goiás. 30 de abril de 2012 | 22h 40. Alana Rizzo e Fábio Fabrini - O Estado de S. Paulo
BRASÍLIA - Definido pela mulher como "preso político", o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, preparava uma ofensiva política em Goiás. Conversas interceptadas pela Polícia Federal durante a Operação Monte Carlo mostram Cachoeira negociando a compra de um partido.
Os áudios da PF indicam que seria a seção goiana do Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB), cujo presidente nacional Levy Fidelix é citado em diversas escutas.
As conversas sobre a compra do partido começam em maio de 2011, quando Cachoeira questiona um aliado sobre a direção da legenda em Goiás. A ideia era tirar do cargo Santana Pires, presidente regional da sigla. Dois dias depois, o contraventor pede a Wladimir Garcêz que envie uma mensagem para alguém, cujo codinome entre o grupo é "nosso maior", questionando se valia a pena "pegar" o PRTB.
A PF identificou que o sargento aposentado da Aeronáutica, Idalberto Matias Araújo, o Dadá, também fazia parte da negociação. Em um grampo, Dadá diz a Cachoeira que falou com o advogado (possivelmente do partido) e que ele teria pedido R$ 300 mil. "Já aumentou aquele valor que falei para você. Falou que era R$ 200 mil, passou para R$ 300 mil", diz Dadá. "Tá roubando. Que garantia que tem?", pergunta Cachoeira. "Disse que faz na hora. O presidente vem e faz tudo e vai para o TRE. Resolve tudo", explica o araponga.
Cachoeira então quer saber quanto custa a manutenção anual do partido e Dadá diz que ele não falou sobre o assunto. "Falou que fica com o Estado todo na mão e nomeia os municípios." Cachoeira anima-se e diz que é para fechar o negócio por R$ 150 mil: "Até R$ 200 mil dá para fazer. Fecha logo, mas tem que ter garantia".
Segundo a PF, em agosto o grupo continuava discutindo o assunto. No início do mês, Dadá liga para Cachoeira perguntando se ele ainda estava interessado "naquele negócio do partido?" Ele confirma e pergunta qual era a legenda. Dadá responde que é o mesmo partido do Levy, o PRTB.
No dia 11, Cachoeira liga para Dadá e questiona: "E o negócio do partido lá, o que deu?". O araponga responde: "Uai, tá naquele lenga, lenga, o cara quer, tá lá em São Paulo, hoje mesmo ligou, querendo os nomes, mas eu sugeri aquilo que você me falou, ‘ó meu irmão, é, vamos visitar lá o 01 do Estado’, aí ele falou ‘não’, que ele ficou de ver com o cara o seguinte: se a gente mandasse um emissário nosso com os nome e se lá o cara quiser trazer a nominata, beleza, entendeu?. Agora entregar os nomes e pegar a nominata no outro dia, eu falei que não tava certo. Aí ele ficou de ver lá com o Levy Fidelix, pra ver se fazia assim, pra mim te falar e mandar mensageiro lá, mandar o negão lá com esses nomes".
Cachoeira mostra-se satisfeito com a resposta e pede que Dadá verifique o andamento das negociações. Três dias depois, Dadá informa que levaria os nomes para o pessoal do partido. Cachoeira insiste para que o araponga marque uma conversa com Fidelix para "desenrolar" o assunto. As investigações não revelam se a negociação prosperou.
O Estado tentou falar com o Levy Fidelix, ontem. Porém, ele não foi localizado.
terça-feira, 1 de maio de 2012
QUADRILHA ARMAVA O CRIME ORGANIZADO
PARCERIA DESFEITA. Denunciada quadrilha que armava crime organizado. Entre as 20 pessoas investigadas pelo Ministério Público estão um policial militar e um da Civil - CARLOS ETCHICHURY, ZERO HORA 01/05/2012
O Ministério Público denunciou 20 pessoas, entre elas dois policiais, por formação de quadrilha e comércio ilegal de armas na Região Metropolitana. Composta por apenados, comerciantes, um investigador da Polícia Civil e um PM, a quadrilha agia como uma agência especializada em revender pistolas, revólveres, espingardas e munição de diferentes calibres para o crime organizado.
Promotores constataram que armas eram roubadas de empresas de segurança, furtadas de fábricas e desviadas de delegacias da Polícia Civil e de apreensões da Brigada Militar. Parte do armamento também era adquirida em países como Paraguai, Argentina e Uruguai.
A quadrilha funcionava como uma terceirizada do crime: fornecia chips e celulares para presidiários, falsificava documentos e placas de veículos e, principalmente, negociava armas ilegais e munições. Entre os líderes do grupo há detentos que cumprem pena no Presídio Central, na Penitenciária Estadual do Jacuí e até na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas.
– As investigações revelaram que o policial civil repassava à quadrilha armas apreendidas pela equipe da DP. Também fazia isso com armas que eram recolhidas e não eram registradas – explica o promotor André Luís Dal Molin Flores, que assina a denúncia formalizada à Justiça.
O descontrole de armas em DPs foi abordado em ZH nove dias atrás. Um relatório do Controle Externo da Atividade Policial, feito pelo Ministério Público e obtido com exclusividade pelo jornal, revela que, em 2010, havia 870 armas nas delegacias de Porto Alegre.
Pelo menos duas centenas delas eram mantidas “no interior de um baú de madeira trancado com um cadeado”. Os promotores identificaram 102 “sem vínculo a inquéritos ou ocorrências policiais” (não era possível saber por que estavam lá) e 106 que “não tinham destino conhecido” (podem ter desaparecido, portanto).
Soldado e inspetor chegaram a ser presos
Denunciados por Dal Molin, o soldado Cledson Roberto Peixoto da Silva, lotado no 26º BPM de Cachoeirinha, e o inspetor Jorge Luís Machado Ferreira, da 3ª DP de Viamão, tinham sido presos em março pelas respectivas corregedorias. Com Ferreira foram encontrados quatro revólveres e uma espingarda sem procedência.
Segundo o MP, Cledson fazia uso da função de policial para comprar legalmente armas e munições, revendidas à quadrilha. Além dos dois servidores, foram denunciadas 10 pessoas envolvidas diretamente na organização do bando, cinco presidiários que foram flagrados contratando os serviços ilegais do bando e três outras pessoas encarregadas de fazer o meio de campo entre a quadrilha e os detentos.
ENTENDA O ESQUEMA
1) Como as armas chegavam a Gravataí - O grupo atacava empresas de vigilância, trazia armamentos do Paraguai e tinha ramificação em delegacias e batalhões policiais e em indústria de armas.
2) Desvio da polícia - Um PM lotado no 26º Batalhão de Polícia Militar de Cachoeirinha e um agente da 2ª Delegacia da Polícia Civil de Gravataí repassavam “armas de fogo, acessórios e munições ilícitas, usando de suas atividades para desviarem armamento, bem como utilizando da condição funcional para comprar munições...”.
3) Fábricas de armas - Foram identificadas armas da quadrilha sem o número de série, o que sugere envolvimento de criminosos dentro de fábrica de armas.
4) Empresas de segurança - O grupo era especializado em assaltos e arrombamentos de empresas de vigilância e segurança.
5) Contrabando - A investigação apurou que armas também vinham do Uruguai, da Argentina e do Paraguai.
6) O depósito - A quadrilha utilizava-se de comércios em Gravataí e Cachoeirinha para armazenar as armas – duas lancherias e uma tele-entrega.
7) Quem eram os clientes - As armas eram negociadas e revendidas para traficantes, assaltantes e homicidas, muitos deles presos em locais como o Presídio Central, a Penitenciária Estadual do Jacuí e a Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc).
8) Onde eram usadas - De acordo com a denúncia, criminosos utilizavam as armas para “realização de roubos, guarnecer pontos de tráfico, em confrontos com facções rivais, bem como para praticar outros delitos”.
9) As apreensões - Em pelo menos nove operações foram apreendidas centenas de munições além das seguintes armas: três espingardas, cinco pistolas e 10 revólveres.
Contrapontos -
O que diz Jorge Luís Machado Ferreira - ZH ligou para a 2ª DP de Gravataí, onde Jorge Luís Machado Ferreira estava lotado. Lá, informaram que ele foi transferido para a 3ª DP de Viamão. Ontem ele não estava trabalhando e seus colegas não souberam informar o telefone celular do policial.
O que diz Cledson Roberto Peixoto da Silva, lotado do 26º BPM de Cachoeirinha - “Não estou sabendo da denúncia do Ministério Público e prefiro não me manifestar”.
O Ministério Público denunciou 20 pessoas, entre elas dois policiais, por formação de quadrilha e comércio ilegal de armas na Região Metropolitana. Composta por apenados, comerciantes, um investigador da Polícia Civil e um PM, a quadrilha agia como uma agência especializada em revender pistolas, revólveres, espingardas e munição de diferentes calibres para o crime organizado.
Promotores constataram que armas eram roubadas de empresas de segurança, furtadas de fábricas e desviadas de delegacias da Polícia Civil e de apreensões da Brigada Militar. Parte do armamento também era adquirida em países como Paraguai, Argentina e Uruguai.
A quadrilha funcionava como uma terceirizada do crime: fornecia chips e celulares para presidiários, falsificava documentos e placas de veículos e, principalmente, negociava armas ilegais e munições. Entre os líderes do grupo há detentos que cumprem pena no Presídio Central, na Penitenciária Estadual do Jacuí e até na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas.
– As investigações revelaram que o policial civil repassava à quadrilha armas apreendidas pela equipe da DP. Também fazia isso com armas que eram recolhidas e não eram registradas – explica o promotor André Luís Dal Molin Flores, que assina a denúncia formalizada à Justiça.
O descontrole de armas em DPs foi abordado em ZH nove dias atrás. Um relatório do Controle Externo da Atividade Policial, feito pelo Ministério Público e obtido com exclusividade pelo jornal, revela que, em 2010, havia 870 armas nas delegacias de Porto Alegre.
Pelo menos duas centenas delas eram mantidas “no interior de um baú de madeira trancado com um cadeado”. Os promotores identificaram 102 “sem vínculo a inquéritos ou ocorrências policiais” (não era possível saber por que estavam lá) e 106 que “não tinham destino conhecido” (podem ter desaparecido, portanto).
Soldado e inspetor chegaram a ser presos
Denunciados por Dal Molin, o soldado Cledson Roberto Peixoto da Silva, lotado no 26º BPM de Cachoeirinha, e o inspetor Jorge Luís Machado Ferreira, da 3ª DP de Viamão, tinham sido presos em março pelas respectivas corregedorias. Com Ferreira foram encontrados quatro revólveres e uma espingarda sem procedência.
Segundo o MP, Cledson fazia uso da função de policial para comprar legalmente armas e munições, revendidas à quadrilha. Além dos dois servidores, foram denunciadas 10 pessoas envolvidas diretamente na organização do bando, cinco presidiários que foram flagrados contratando os serviços ilegais do bando e três outras pessoas encarregadas de fazer o meio de campo entre a quadrilha e os detentos.
ENTENDA O ESQUEMA
1) Como as armas chegavam a Gravataí - O grupo atacava empresas de vigilância, trazia armamentos do Paraguai e tinha ramificação em delegacias e batalhões policiais e em indústria de armas.
2) Desvio da polícia - Um PM lotado no 26º Batalhão de Polícia Militar de Cachoeirinha e um agente da 2ª Delegacia da Polícia Civil de Gravataí repassavam “armas de fogo, acessórios e munições ilícitas, usando de suas atividades para desviarem armamento, bem como utilizando da condição funcional para comprar munições...”.
3) Fábricas de armas - Foram identificadas armas da quadrilha sem o número de série, o que sugere envolvimento de criminosos dentro de fábrica de armas.
4) Empresas de segurança - O grupo era especializado em assaltos e arrombamentos de empresas de vigilância e segurança.
5) Contrabando - A investigação apurou que armas também vinham do Uruguai, da Argentina e do Paraguai.
6) O depósito - A quadrilha utilizava-se de comércios em Gravataí e Cachoeirinha para armazenar as armas – duas lancherias e uma tele-entrega.
7) Quem eram os clientes - As armas eram negociadas e revendidas para traficantes, assaltantes e homicidas, muitos deles presos em locais como o Presídio Central, a Penitenciária Estadual do Jacuí e a Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc).
8) Onde eram usadas - De acordo com a denúncia, criminosos utilizavam as armas para “realização de roubos, guarnecer pontos de tráfico, em confrontos com facções rivais, bem como para praticar outros delitos”.
9) As apreensões - Em pelo menos nove operações foram apreendidas centenas de munições além das seguintes armas: três espingardas, cinco pistolas e 10 revólveres.
Contrapontos -
O que diz Jorge Luís Machado Ferreira - ZH ligou para a 2ª DP de Gravataí, onde Jorge Luís Machado Ferreira estava lotado. Lá, informaram que ele foi transferido para a 3ª DP de Viamão. Ontem ele não estava trabalhando e seus colegas não souberam informar o telefone celular do policial.
O que diz Cledson Roberto Peixoto da Silva, lotado do 26º BPM de Cachoeirinha - “Não estou sabendo da denúncia do Ministério Público e prefiro não me manifestar”.
domingo, 29 de abril de 2012
OS NARCOSSUBMARINOS
Os narcossubmarinos. Crime organizado investe em embarcações de alta tecnologia para driblar órgãos de segurança e transportar toneladas de cocaína pelos mares - REVISTA ISTO É Comportamento. N° Edição: 2216, 29.Abr.12 - 11:24
Os traficantes de drogas descobriram, e aperfeiçoaram ao longo das duas últimas décadas, um trunfo para levar toneladas de cocaína aos Estados Unidos e México, driblando a rigorosa fiscalização nos portos e aeroportos. Eles optaram por submergir a droga e levá-la dentro de submarinos fabricados em estaleiros artesanais, localizados principalmente no Equador e na Colômbia.
Na semana passada, a Guarda Costeira dos EUA divulgou a apreensão, e posterior afundamento, de um narcossubmarino no Mar do Caribe, em fins de março. Os quatro tripulantes foram levados presos para Miami, no Estado da Flórida. É a trigésima captura em seis anos. “Não estamos falando de submarinos militares, mas de submersíveis menores, que podem ser comprados livremente no mercado internacional por qualquer um que tenha alguns milhões de dólares”, alertou Alexandre Schmidt, diretor do ramo africano da Agência das Nações Unidas de Combate às Drogas e ao Crime Organizado.
Informes da Inteligência da Colômbia dão conta de que o primeiro grupo criminoso a usar tal artimanha foi o cartel de Medellín. Os narcoterroristas das Farcs possuem estaleiros onde fabricam as embarcações, cujos preços podem chegar a US$ 2 milhões. Os narcossubmarinos evoluíram desde que um pequeno semissubmersível com capacidade para duas toneladas foi encontrado na costa do Pacífico pela Guarda Costeira americana no ano de 1993.
Em outubro de 2011, no Caribe colombiano, policiais encontraram uma embarcação capaz de carregar até dez toneladas. Pintada de azul, para dificultar ainda mais os radares, era feita de madeira reforçada com fibra de vidro sustentada por aço e possuía os instrumentos sofisticados: GPS para navegação submersa, computador de ponta e usina de energia. Os traficantes dividem espaço exíguo com a droga, em condições precárias. Ao final da travessia, o barco é afundado.
“Esses artefatos são câmaras mortuárias genuínas pelo alto risco que representam para a tripulação, mas não são facilmente detectados pelo radar porque eles usam fibra de vidro, que os torna quase invisíveis”, afirmou o diretor da Polícia Antinarcóticos da Colômbia, general Luis Alberto Pérez. Mas, para os traficantes, o lucro compensa o risco.
Os traficantes de drogas descobriram, e aperfeiçoaram ao longo das duas últimas décadas, um trunfo para levar toneladas de cocaína aos Estados Unidos e México, driblando a rigorosa fiscalização nos portos e aeroportos. Eles optaram por submergir a droga e levá-la dentro de submarinos fabricados em estaleiros artesanais, localizados principalmente no Equador e na Colômbia.
Na semana passada, a Guarda Costeira dos EUA divulgou a apreensão, e posterior afundamento, de um narcossubmarino no Mar do Caribe, em fins de março. Os quatro tripulantes foram levados presos para Miami, no Estado da Flórida. É a trigésima captura em seis anos. “Não estamos falando de submarinos militares, mas de submersíveis menores, que podem ser comprados livremente no mercado internacional por qualquer um que tenha alguns milhões de dólares”, alertou Alexandre Schmidt, diretor do ramo africano da Agência das Nações Unidas de Combate às Drogas e ao Crime Organizado.
Informes da Inteligência da Colômbia dão conta de que o primeiro grupo criminoso a usar tal artimanha foi o cartel de Medellín. Os narcoterroristas das Farcs possuem estaleiros onde fabricam as embarcações, cujos preços podem chegar a US$ 2 milhões. Os narcossubmarinos evoluíram desde que um pequeno semissubmersível com capacidade para duas toneladas foi encontrado na costa do Pacífico pela Guarda Costeira americana no ano de 1993.
Em outubro de 2011, no Caribe colombiano, policiais encontraram uma embarcação capaz de carregar até dez toneladas. Pintada de azul, para dificultar ainda mais os radares, era feita de madeira reforçada com fibra de vidro sustentada por aço e possuía os instrumentos sofisticados: GPS para navegação submersa, computador de ponta e usina de energia. Os traficantes dividem espaço exíguo com a droga, em condições precárias. Ao final da travessia, o barco é afundado.
“Esses artefatos são câmaras mortuárias genuínas pelo alto risco que representam para a tripulação, mas não são facilmente detectados pelo radar porque eles usam fibra de vidro, que os torna quase invisíveis”, afirmou o diretor da Polícia Antinarcóticos da Colômbia, general Luis Alberto Pérez. Mas, para os traficantes, o lucro compensa o risco.
CONEXÃO HAWALA
Este é o nome do esquema clandestino que o bicheiro Carlinhos Cachoeira utilizava para lavar milhões de dólares do seu grupo criminoso. O método é usado por grupos terroristas como a Al-Qaeda de Bin Laden. Saiba como ele funciona. Alan Rodrigues e Pedro Marcondes de Moura - REVISTA ISTO É N° Edição: 2216, 29.Abr.12 - 11:13
Nos próximos dias, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Congresso que investiga as relações do bicheiro Carlinhos Cachoeira com políticos e empresários receberá do Supremo Tribunal Federal (STF) os dados da Operação Monte Carlo, desencadeada pela Polícia Federal, que apurou a jogatina no Brasil e seus tentáculos com o poder. Os parlamentares terão acesso a informações que revelam como o contraventor operava para lavar o dinheiro sujo do jogo do bicho e da corrupção. Segundo o inquérito da PF, Cachoeira utiliza um dos mais sofisticados e eficientes modelos de lavagem de dinheiro do mundo, conhecido como Operação Hawala. Trata-se, segundo a PF, do mesmo esquema utilizado pela rede terrorista Al-Qaeda, criada por Osama bin Laden para financiar atentados. Documentos que fazem parte do inquérito mostram que, a partir da Operação Hawala, o grupo de Cachoeira conseguiu movimentar mais de US$ 400 milhões em três continentes e oito países – Argentina, Uruguai, Estados Unidos, Antilhas Holandesas, China, Coreia do Sul, Irlanda e Reino Unido.
A grande artimanha do sistema adotado por Cachoeira e terroristas internacionais é que ele não envolve remessas físicas de capital, tampouco documentos escritos. O que existem são trocas de créditos lastreadas na palavra – no estilo “eu confio em você”, o popular “fio do bigode”. O objetivo é não deixar rastros. Por isso ele é considerado um inferno para quem investiga crimes de lavagem e evasão de divisas. Com base nos preceitos da Hawala, que em árabe significa “transferência de significados”, o esquema de Cachoeira de lavagem de dinheiro, segundo as interceptações da PF, funcionava da seguinte maneira: os operadores do bicheiro, incluindo um doleiro, pediam verbalmente para outro doleiro no Exterior que determinado pagamento fosse efetuado. No Exterior, o doleiro pagava o receptor. Para receber o dinheiro, no entanto, o receptor era obrigado a dizer uma senha, previamente combinada com o grupo de Cachoeira. O operador Hawala no Exterior ficava com o crédito no Brasil que poderia ser pago não só em espécie, mas em imóveis, carros, entre outros bens (ver quadro).
O relatório 163/2011 da Polícia Federal, parte integrante do processo que está no STF, apresenta com riqueza de detalhes o esquema de evasão de divisas montado por Cachoeira. Nele aparecem o ex-cunhado do contraventor, Adriano Conrado Caiado Viana Feitosa, Wesley José Carneiro e Geovani Pereira da Silva, segundo a PF, respectivamente, o doleiro e o contador do bicheiro, além de Lenine Araújo de Souza, gerente-geral de Cachoeira. Entre os milhares de e-mails interceptados – só de Pereira da Silva foram 15 mil e-mails –, a PF conseguiu constatar quem é quem no esquema Hawala. Às 0h14 do dia 5 de agosto de 2011, por exemplo, Conrado envia uma correspondência eletrônica para Lenine na qual deixa claro que o responsável do esquema para a Operação Hawala era o doleiro Wesley, preso na tarde da quarta-feira 25 em Goiás. “Não há necessidade de copiar Wesley nos e-mails, ele foi contratado somente para fazer a remessa de dinheiro”, disse Lenine. Em outros diálogos interceptados em maio de 2011 entre Gleib Ferreira da Cruz, segundo a PF, “o braço direito de Cachoeira para qualquer assunto na organização criminosa”, e Leide, irmã de Gleib, a quadrilha fornece mais elementos sobre o funcionamento do esquema: “O negócio é fazer a transferência sem causar problema. Precisa colocar o dólar aí no Brasil em real e você por aqui em dólar. Só trocando moeda, sem problema.” De acordo com o relatório da PF, “Gleib auxilia diretamente Carlos Augusto na alocação de recursos de suas atividades ilícitas na aquisição de bens, circulação de valores, no pagamento de terceiros, comparsas e/ou prestadores de serviços, na aquisição de telefones no Exterior; imóveis, de veículos e também nas operações não autorizadas de câmbio e na remessa de valores para fora do país”.
De acordo com as apurações da PF, para lavar o dinheiro irrigado pelo bingo e pela corrupção, a organização criminosa montada pelo bicheiro construiu uma rede criminosa que envolve 38 empresas ativas. Muitas delas no Exterior, como a offshore uruguaia Raxfell Corp., com conta-corrente na Argentina e fundada no paraíso fiscal de Curaçao, nas Antilhas Holandesas. Mas os grampos telefônicos mostram que os negócios de Cachoeira não se resumem a um só continente. Passam também pela Ásia e Europa. Na Coreia do Sul, por exemplo, o contraventor é acionista da Bet Co, na província de Kyunggi. Na Irlanda, Cachoeira comprou por um R$ 1 milhão um site de apostas, o Brazilbingo. A compra do site de apostas pelo contraventor fica clara na documentação apreendida pela PF. Os documentos mostram que Cachoeira creditou o dinheiro no Bank of Ireland via Estados Unidos. “O contato de 06/07/2011 às 11:24:21, entre Lenine, Estados Unidos e Reino Unido, confirmam essa dinâmica”, diz o inquérito.
Outra interceptação telefônica mostra que, por meio da Operação Hawala, Cachoeira celebrou negócios na China. Numa das conversas gravadas pela PF, Gleib conversa com Ananias, um policial militar de Goiás e segurança dos cassinos de Cachoeira, sobre as transações no continente asiático.
Ananias – Eu preciso fazer um pagamento na China, de duzentos mil dólares, sem declarar. Quanto cê cobra para pôr esse dinheiro lá pra mim?
Gleib – Vou ver. Duzentos mil?
Ananias – Duzentos mil. A máquina custa duzentos mil dólares. É um amigo meu, só que ele não quer para não declarar aqui pra eles. Cê me fala quanto cê cobra pra nós pôr esse dinheiro lá pro cara?
Gleib – Tá.
A partir desta conversa, a PF concluiu que “o uso extensivo de conexões, como relações familiares e societárias, é o componente que a distingue de outras formas de remessas. As regularizações de dívidas entre corretores Hawala podem tomar uma variedade de formas (como bens, serviços e propriedades)”. É com base nesses novos trechos do inquérito da PF que os parlamentares indicados para a CPI do Cachoeira pretendem dar a dimensão do esquema e chegar aos responsáveis pela lavagem do dinheiro sujo do jogo do bicho e da corrupção.
Antes mesmo de os trabalhos começarem, as investigações já causam desdobramentos. Na quarta-feira 25, Fernando Cavendish, presidente do conselho diretor da Delta, e Carlos Pacheco, diretor da construtora, pediram afastamento da empresa após as investigações indicarem elo entre eles e o pagamento de propina para autoridades de diversos escalões. No meio político, o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), passou a ser alvo de investigações da Procuradoria-Geral da República, junto com os deputados federais Carlos Leréia (PSDB-GO), Sandes Júnior (PP-GO) e Stepan Nercessian (PPS-RJ), por suspeitas de ter se beneficiado do esquema criminoso, que a cada dia revela novos tentáculos.
Nos próximos dias, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Congresso que investiga as relações do bicheiro Carlinhos Cachoeira com políticos e empresários receberá do Supremo Tribunal Federal (STF) os dados da Operação Monte Carlo, desencadeada pela Polícia Federal, que apurou a jogatina no Brasil e seus tentáculos com o poder. Os parlamentares terão acesso a informações que revelam como o contraventor operava para lavar o dinheiro sujo do jogo do bicho e da corrupção. Segundo o inquérito da PF, Cachoeira utiliza um dos mais sofisticados e eficientes modelos de lavagem de dinheiro do mundo, conhecido como Operação Hawala. Trata-se, segundo a PF, do mesmo esquema utilizado pela rede terrorista Al-Qaeda, criada por Osama bin Laden para financiar atentados. Documentos que fazem parte do inquérito mostram que, a partir da Operação Hawala, o grupo de Cachoeira conseguiu movimentar mais de US$ 400 milhões em três continentes e oito países – Argentina, Uruguai, Estados Unidos, Antilhas Holandesas, China, Coreia do Sul, Irlanda e Reino Unido.
A grande artimanha do sistema adotado por Cachoeira e terroristas internacionais é que ele não envolve remessas físicas de capital, tampouco documentos escritos. O que existem são trocas de créditos lastreadas na palavra – no estilo “eu confio em você”, o popular “fio do bigode”. O objetivo é não deixar rastros. Por isso ele é considerado um inferno para quem investiga crimes de lavagem e evasão de divisas. Com base nos preceitos da Hawala, que em árabe significa “transferência de significados”, o esquema de Cachoeira de lavagem de dinheiro, segundo as interceptações da PF, funcionava da seguinte maneira: os operadores do bicheiro, incluindo um doleiro, pediam verbalmente para outro doleiro no Exterior que determinado pagamento fosse efetuado. No Exterior, o doleiro pagava o receptor. Para receber o dinheiro, no entanto, o receptor era obrigado a dizer uma senha, previamente combinada com o grupo de Cachoeira. O operador Hawala no Exterior ficava com o crédito no Brasil que poderia ser pago não só em espécie, mas em imóveis, carros, entre outros bens (ver quadro).
O relatório 163/2011 da Polícia Federal, parte integrante do processo que está no STF, apresenta com riqueza de detalhes o esquema de evasão de divisas montado por Cachoeira. Nele aparecem o ex-cunhado do contraventor, Adriano Conrado Caiado Viana Feitosa, Wesley José Carneiro e Geovani Pereira da Silva, segundo a PF, respectivamente, o doleiro e o contador do bicheiro, além de Lenine Araújo de Souza, gerente-geral de Cachoeira. Entre os milhares de e-mails interceptados – só de Pereira da Silva foram 15 mil e-mails –, a PF conseguiu constatar quem é quem no esquema Hawala. Às 0h14 do dia 5 de agosto de 2011, por exemplo, Conrado envia uma correspondência eletrônica para Lenine na qual deixa claro que o responsável do esquema para a Operação Hawala era o doleiro Wesley, preso na tarde da quarta-feira 25 em Goiás. “Não há necessidade de copiar Wesley nos e-mails, ele foi contratado somente para fazer a remessa de dinheiro”, disse Lenine. Em outros diálogos interceptados em maio de 2011 entre Gleib Ferreira da Cruz, segundo a PF, “o braço direito de Cachoeira para qualquer assunto na organização criminosa”, e Leide, irmã de Gleib, a quadrilha fornece mais elementos sobre o funcionamento do esquema: “O negócio é fazer a transferência sem causar problema. Precisa colocar o dólar aí no Brasil em real e você por aqui em dólar. Só trocando moeda, sem problema.” De acordo com o relatório da PF, “Gleib auxilia diretamente Carlos Augusto na alocação de recursos de suas atividades ilícitas na aquisição de bens, circulação de valores, no pagamento de terceiros, comparsas e/ou prestadores de serviços, na aquisição de telefones no Exterior; imóveis, de veículos e também nas operações não autorizadas de câmbio e na remessa de valores para fora do país”.
De acordo com as apurações da PF, para lavar o dinheiro irrigado pelo bingo e pela corrupção, a organização criminosa montada pelo bicheiro construiu uma rede criminosa que envolve 38 empresas ativas. Muitas delas no Exterior, como a offshore uruguaia Raxfell Corp., com conta-corrente na Argentina e fundada no paraíso fiscal de Curaçao, nas Antilhas Holandesas. Mas os grampos telefônicos mostram que os negócios de Cachoeira não se resumem a um só continente. Passam também pela Ásia e Europa. Na Coreia do Sul, por exemplo, o contraventor é acionista da Bet Co, na província de Kyunggi. Na Irlanda, Cachoeira comprou por um R$ 1 milhão um site de apostas, o Brazilbingo. A compra do site de apostas pelo contraventor fica clara na documentação apreendida pela PF. Os documentos mostram que Cachoeira creditou o dinheiro no Bank of Ireland via Estados Unidos. “O contato de 06/07/2011 às 11:24:21, entre Lenine, Estados Unidos e Reino Unido, confirmam essa dinâmica”, diz o inquérito.
Outra interceptação telefônica mostra que, por meio da Operação Hawala, Cachoeira celebrou negócios na China. Numa das conversas gravadas pela PF, Gleib conversa com Ananias, um policial militar de Goiás e segurança dos cassinos de Cachoeira, sobre as transações no continente asiático.
Ananias – Eu preciso fazer um pagamento na China, de duzentos mil dólares, sem declarar. Quanto cê cobra para pôr esse dinheiro lá pra mim?
Gleib – Vou ver. Duzentos mil?
Ananias – Duzentos mil. A máquina custa duzentos mil dólares. É um amigo meu, só que ele não quer para não declarar aqui pra eles. Cê me fala quanto cê cobra pra nós pôr esse dinheiro lá pro cara?
Gleib – Tá.
A partir desta conversa, a PF concluiu que “o uso extensivo de conexões, como relações familiares e societárias, é o componente que a distingue de outras formas de remessas. As regularizações de dívidas entre corretores Hawala podem tomar uma variedade de formas (como bens, serviços e propriedades)”. É com base nesses novos trechos do inquérito da PF que os parlamentares indicados para a CPI do Cachoeira pretendem dar a dimensão do esquema e chegar aos responsáveis pela lavagem do dinheiro sujo do jogo do bicho e da corrupção.
Antes mesmo de os trabalhos começarem, as investigações já causam desdobramentos. Na quarta-feira 25, Fernando Cavendish, presidente do conselho diretor da Delta, e Carlos Pacheco, diretor da construtora, pediram afastamento da empresa após as investigações indicarem elo entre eles e o pagamento de propina para autoridades de diversos escalões. No meio político, o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), passou a ser alvo de investigações da Procuradoria-Geral da República, junto com os deputados federais Carlos Leréia (PSDB-GO), Sandes Júnior (PP-GO) e Stepan Nercessian (PPS-RJ), por suspeitas de ter se beneficiado do esquema criminoso, que a cada dia revela novos tentáculos.
quarta-feira, 25 de abril de 2012
JOGOS CLANDESTINOS
BEATRIZ FAGUNDES, O SUL
Porto Alegre, Quarta-feira, 25 de Abril de 2012.
A violência e o uso de drogas são os piores problemas que afetam a população gaúcha. E a polícia ocupada em fechar por algumas horas antros frequentados por cidadãos comuns, que poderiam estar jogando tranquilos em casas legalizadas.
Em meio ao farto noticiário sobre as futuras investigações quanto ao tamanho dos tentáculos do suposto poderoso chefão Carlinhos Cachoeira uma notícia policial envolvendo cassinos clandestinos na Capital merece destaque. Na noite da última segunda-feira, a Polícia Civil estourou uma dessas pocilgas revelando uma novíssima (seria mesmo?) forma dos operadores tentarem fugir do flagrante. Segundo revelação do responsável pela operação, o delegado Tiago Baldin, os operadores passaram a trancar os jogadores, desligando a energia elétrica e exigindo silêncio absoluto dos clientes. Na sexta-feira, dia 20, em outra operação, os clientes chegaram a ficar três horas trancados, no escuro e sem ar-condicionado, claro, obrigados a manter silêncio. Alguns desmaiaram. "Eles estão usando de coação e cárcere privado na falsa ilusão de que a polícia não vá constatar e não vá ingressar no local" - explicou o delegado. Como diz a máxima: "Seria trágico, se não fosse cômico".
Trágico por sermos obrigados a conviver com essa triste obrigação da polícia; caçar e prender operadores de caça-níqueis, sabendo que em poucas horas os presos serão liberados, pagando fiança, e que a cada um preso surgem outros dois para ocupar a vaga. Cômico na medida em que qual seria a reação dos criminosos senão a de tentar driblar o flagrante desligando tudo para parecer que nada esteja ocorrendo no local investigado? Cômica igualmente a reação dos clientes, algumas vítimas chegando a desmaiar diante da exigência feita pelos bandidos de permanecerem em silêncio e no escuro. Esperavam o quê? Que os "funcionários" das casas de jogos as quais, todos os que ali sabem serem clandestinas, ilegais e gerenciadas pelo crime organizado deixariam que seus clientes cantassem "até que enfim, até que enfim, chegaram os bobos que cuidam de mim"! É muito desperdício de energia, tempo e dinheiro, além dos riscos físicos a que os agentes policiais são expostos. Igual a secar gelo e escrever sonetos inesquecíveis na água. Até quando a sociedade será exposta de forma ridícula a histórias como as ocorridas na famosíssima rua Azenha (endereço conhecido de espeluncas de jogos clandestinos)? E, até quando os políticos de Brasília continuarão a fazer papel de ingênuos defensores da moral sem voltar a aprovar a abertura dos chamados Bingos?
Cachoeira, que poderá fazer tremer a república está enredado, com negócios suspeitos envolvendo laboratórios e empreiteiras, mas foi uma investigação da Polícia Federal sobre jogos clandestinos denominada Operação Monte Carlo que o transformou em celebridade da hora. É piada. Enquanto choramos de tanto rir, aos policiais resta engolir em seco a acusação de não investigarem com a devida competência os milhares de assassinatos, cujos inquéritos mofam nas delegacias mal equipadas e sem número suficiente de agentes. De cada 10 pessoas assassinadas em 2011, cinco foram executadas por causa do tráfico de entorpecentes. Levantamento feito com base em 1.644 ocorrências policiais, só no ano passado, sobre 1.736 mortes, revela que 68% dos crimes ocorreram em via pública, evidenciando execução. A violência e o uso de drogas são os piores problemas que afetam a população gaúcha. E a polícia ocupada em fechar por algumas horas antros frequentados por cidadãos comuns, que poderiam estar jogando tranquilos em casas legalizadas sendo roubados pelo crime organizado. Não pode dar certo!
Porto Alegre, Quarta-feira, 25 de Abril de 2012.
A violência e o uso de drogas são os piores problemas que afetam a população gaúcha. E a polícia ocupada em fechar por algumas horas antros frequentados por cidadãos comuns, que poderiam estar jogando tranquilos em casas legalizadas.
Em meio ao farto noticiário sobre as futuras investigações quanto ao tamanho dos tentáculos do suposto poderoso chefão Carlinhos Cachoeira uma notícia policial envolvendo cassinos clandestinos na Capital merece destaque. Na noite da última segunda-feira, a Polícia Civil estourou uma dessas pocilgas revelando uma novíssima (seria mesmo?) forma dos operadores tentarem fugir do flagrante. Segundo revelação do responsável pela operação, o delegado Tiago Baldin, os operadores passaram a trancar os jogadores, desligando a energia elétrica e exigindo silêncio absoluto dos clientes. Na sexta-feira, dia 20, em outra operação, os clientes chegaram a ficar três horas trancados, no escuro e sem ar-condicionado, claro, obrigados a manter silêncio. Alguns desmaiaram. "Eles estão usando de coação e cárcere privado na falsa ilusão de que a polícia não vá constatar e não vá ingressar no local" - explicou o delegado. Como diz a máxima: "Seria trágico, se não fosse cômico".
Trágico por sermos obrigados a conviver com essa triste obrigação da polícia; caçar e prender operadores de caça-níqueis, sabendo que em poucas horas os presos serão liberados, pagando fiança, e que a cada um preso surgem outros dois para ocupar a vaga. Cômico na medida em que qual seria a reação dos criminosos senão a de tentar driblar o flagrante desligando tudo para parecer que nada esteja ocorrendo no local investigado? Cômica igualmente a reação dos clientes, algumas vítimas chegando a desmaiar diante da exigência feita pelos bandidos de permanecerem em silêncio e no escuro. Esperavam o quê? Que os "funcionários" das casas de jogos as quais, todos os que ali sabem serem clandestinas, ilegais e gerenciadas pelo crime organizado deixariam que seus clientes cantassem "até que enfim, até que enfim, chegaram os bobos que cuidam de mim"! É muito desperdício de energia, tempo e dinheiro, além dos riscos físicos a que os agentes policiais são expostos. Igual a secar gelo e escrever sonetos inesquecíveis na água. Até quando a sociedade será exposta de forma ridícula a histórias como as ocorridas na famosíssima rua Azenha (endereço conhecido de espeluncas de jogos clandestinos)? E, até quando os políticos de Brasília continuarão a fazer papel de ingênuos defensores da moral sem voltar a aprovar a abertura dos chamados Bingos?
Cachoeira, que poderá fazer tremer a república está enredado, com negócios suspeitos envolvendo laboratórios e empreiteiras, mas foi uma investigação da Polícia Federal sobre jogos clandestinos denominada Operação Monte Carlo que o transformou em celebridade da hora. É piada. Enquanto choramos de tanto rir, aos policiais resta engolir em seco a acusação de não investigarem com a devida competência os milhares de assassinatos, cujos inquéritos mofam nas delegacias mal equipadas e sem número suficiente de agentes. De cada 10 pessoas assassinadas em 2011, cinco foram executadas por causa do tráfico de entorpecentes. Levantamento feito com base em 1.644 ocorrências policiais, só no ano passado, sobre 1.736 mortes, revela que 68% dos crimes ocorreram em via pública, evidenciando execução. A violência e o uso de drogas são os piores problemas que afetam a população gaúcha. E a polícia ocupada em fechar por algumas horas antros frequentados por cidadãos comuns, que poderiam estar jogando tranquilos em casas legalizadas sendo roubados pelo crime organizado. Não pode dar certo!
JOGO REPRIMIDO
Cresce cerco a contraventores. Com ações para coibir atividade ilegal, apreensões de caça-níqueis na Capital subiram 83% nos três primeiros meses do ano - CARLOS ETCHICHURY, ZERO HORA 25/04/2012
A Polícia Civil está fechando o cerco aos contraventores na Capital. Nos três primeiros meses do ano, uma equipe composta por seis investigadores e um delegado, vinculados à Delegacia de Polícia Regional de Porto Alegre, apreendeu 2.563 máquinas em casas clandestinas de jogos – número 83% superior ao registrado em igual período do ano passado, que finalizou o trimestre com 1.399 equipamentos apreendidos.
O incremento das apreensões coincide com a criação de um grupo, coordenado pelo delegado Tiago Baldin, que tem a função exclusiva de reprimir a contravenção.
– Desde outubro, quando assumimos esta função, realizamos operações todos os dias – diz Baldin.
É consenso entre investigadores, delegados e promotores do Ministério Público que atuam na área criminal que a sensação de impunidade colabora para que jogo se revigore no país. Como se trata de um delito de menor potencial, ninguém vai preso operando uma casa de jogo.
Com a ação policial mais intensa, os contraventores têm cometido um outro crime para evitar prejuízos: cárcere privado.
Em duas recentes operações, uma realizada no final da noite de segunda-feira e outra na sexta-feira da semana passada, a polícia localizou 16 pessoas presas dentro das casas durante a abordagem.
– Os contraventores apagam as luzes, desligam o ar-condicionado e mantêm pessoas presas esperando que a polícia não entre nas casas clandestinas. Mas nós vamos continuar fazendo as operações e apreendendo máquinas – avisa o delegado.
No submundo da jogatina, é comum apostadores, muitos viciados, colaborarem com os donos de casas nas batidas policiais mantendo-se em silêncio e até deitando no chão.
– Como as pessoas não querem que as casas sejam fechadas, acabam se prestando a este tipo de coisa – detalha uma promotora com larga atuação na repressão o jogo no Estado.
Na última sexta-feira, porém, a polícia descobriu a presença de 12 pessoas – a maioria idosas, algumas doentes – detidas num ambiente escuro e insalubre durante três horas.
A nova tática dos criminosos também foi flagrada na segunda-feira, num estabelecimento clandestino da Avenida Azenha. Ao entrarem no local, os policiais depararam com quatro clientes em uma peça.
A Polícia Civil está fechando o cerco aos contraventores na Capital. Nos três primeiros meses do ano, uma equipe composta por seis investigadores e um delegado, vinculados à Delegacia de Polícia Regional de Porto Alegre, apreendeu 2.563 máquinas em casas clandestinas de jogos – número 83% superior ao registrado em igual período do ano passado, que finalizou o trimestre com 1.399 equipamentos apreendidos.
O incremento das apreensões coincide com a criação de um grupo, coordenado pelo delegado Tiago Baldin, que tem a função exclusiva de reprimir a contravenção.
– Desde outubro, quando assumimos esta função, realizamos operações todos os dias – diz Baldin.
É consenso entre investigadores, delegados e promotores do Ministério Público que atuam na área criminal que a sensação de impunidade colabora para que jogo se revigore no país. Como se trata de um delito de menor potencial, ninguém vai preso operando uma casa de jogo.
Com a ação policial mais intensa, os contraventores têm cometido um outro crime para evitar prejuízos: cárcere privado.
Em duas recentes operações, uma realizada no final da noite de segunda-feira e outra na sexta-feira da semana passada, a polícia localizou 16 pessoas presas dentro das casas durante a abordagem.
– Os contraventores apagam as luzes, desligam o ar-condicionado e mantêm pessoas presas esperando que a polícia não entre nas casas clandestinas. Mas nós vamos continuar fazendo as operações e apreendendo máquinas – avisa o delegado.
No submundo da jogatina, é comum apostadores, muitos viciados, colaborarem com os donos de casas nas batidas policiais mantendo-se em silêncio e até deitando no chão.
– Como as pessoas não querem que as casas sejam fechadas, acabam se prestando a este tipo de coisa – detalha uma promotora com larga atuação na repressão o jogo no Estado.
Na última sexta-feira, porém, a polícia descobriu a presença de 12 pessoas – a maioria idosas, algumas doentes – detidas num ambiente escuro e insalubre durante três horas.
A nova tática dos criminosos também foi flagrada na segunda-feira, num estabelecimento clandestino da Avenida Azenha. Ao entrarem no local, os policiais depararam com quatro clientes em uma peça.
domingo, 22 de abril de 2012
UMA REDE CRIMINOSA CORROMPE O BRASIL

Uma rede criminosa que corrompe o País. Como o bicheiro montou um verdadeiro império empresarial para desviar verbas, fraudar licitações, lavar dinheiro e se infiltrar no poder público. Esse bilionário esquema de corrupção funciona há 16 anos e se espalha por todo o Brasil - Claudio Dantas Sequeira - REVISTA ISTO É N° Edição: 2215 | 22.Abr.12 - 11:45
Na semana passada, ISTOÉ obteve a íntegra do inquérito da Operação Monte Carlo, que resultou na prisão do bicheiro Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira. São quase 15 mil páginas, reunidas em 40 volumes e duas dezenas de apensos, além de 11 mil horas de gravações. Na análise do processo, do qual apenas alguns trechos eram conhecidos até então, a Polícia Federal não só traz à tona as relações promíscuas do esquema do bicheiro com autoridades nos três níveis de poder como esmiúça um império de empresas criadas com a finalidade de corromper em todo o País, desviar verbas, fraudar licitações e lavar o dinheiro ilegal. O levantamento também deixa claro que o grupo de Cachoeira vem agindo há pelo menos 16 anos e foi capaz de ultrapassar diversos governos e tonalidades partidárias. “Aqui come todo mundo, cara. Se não pagar pra todo mundo não funciona. Eu tô nisso há 16 anos!”, sintetiza Lenine Araújo de Souza, o braço direito de Cachoeira, em diálogo gravado pela Polícia Federal.
A descentralização dos negócios e o uso extensivo de laranjas deram capilaridade nacional à atuação de Cachoeira. Embora o bicheiro mantenha o controle das empresas por meio de um núcleo formado por parentes e amigos próximos, a PF identificou pelo menos 149 pessoas que em algum momento estiveram ou ainda estão associadas à quadrilha. Normalmente, a máfia de Cachoeira participa de licitações que já consideram ganhas, à base, é claro, de pagamentos de propina para autoridades e servidores estratégicos. A análise desse império de dimensões bilionárias indica que Cachoeira, nos últimos anos, usou especialmente empresas ligadas à área de medicamentos para se aproximar de governos em, no mínimo, nove Estados. O objetivo do empresário-bicheiro era abocanhar uma bilionária fatia da verba pública destinada à compra de medicamentos genéricos. Para isso, criou o laboratório Vitapan, com sede em Anápolis (GO), que rapidamente se tornou um dos principais fornecedores nacionais de genéricos. O laboratório foi uma espécie de cartão de visitas de Cachoeira para se infiltrar em governos estaduais e municipais. Hoje, a empresa está avaliada em R$ 100 milhões, tem convênios até com a Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, e está associada a outros grandes do setor, como a Neo Química e o laboratório Teuto Brasileiro. A Neo Química está hoje nas mãos do grupo Hypermarcas do empresário Marcelo Henrique Limírio, sócio de Cachoeira no Instituto de Ciências Farmacêuticas (ICF), que produz testes laboratoriais e faturou R$ 10 milhões em 2010, segundo a PF. Limírio também é sócio do senador Demóstenes Torres no Instituto de Nova Educação, faculdade criada em Contagem, e doou R$ 2,2 milhões para as campanhas de Demóstenes e do governador de Goiás, Marconi Perillo.
Ao longo dos últimos 16 anos, Cachoeira aprimorou e diversificou esse esquema. Mas, no início de suas atividades, ele usava empresas de gestão de loterias, seu core business, para fazer a aproximação com o poder público. Com a empresa Capital Bet, ele venceu sozinho a concorrência para a distribuição de bilhetes de loterias no Rio Grande do Sul, em 2001, na gestão Olívio Dutra. Com a Gerplan, que controlava a loteria em Goiás, entrou no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. O modus operandi incluía fraudes nos prêmios das loterias e suborno de autoridades, como foi revelado no escândalo Waldomiro Diniz, que desembocaria na CPI dos Bingos.
Hoje as organizações de Cachoeira possuem tentáculos que vão muito além da loteria e do jogo do bicho. Entre os negócios com fachada legal mais lucrativos de Cachoeira, está a construção civil. Até aqui desconhecida do mercado, a Mapa Construtora firmou contratos com prefeituras do Ceará e de São Paulo. Na capital paulista, a empreiteira é a responsável pela construção do edifício que vai abrigar o arquivo geral da USP – contrato de R$ 2,1 milhões. Na cidade cearense de Vartoja, firmou convênios de R$ 1,8 milhão para a construção de uma escola infantil e uma quadra esportiva, que ainda não saíram do papel. Outra empresa do grupo do bicheiro, a Trade Construtora, obteve contrato de obras públicas em Anápolis, na atual gestão do petista Antônio Gomide. A Trade foi condenada pela Controladoria do Estado a devolver R$ 360 mil por irregularidades. Esses contratos, no entanto, representam uma pequena parcela do lucro de Cachoeira no setor.
A partir de rastreamentos bancários feitos pela PF, sabe-se agora que boa parte dos recursos públicos que irrigaram o esquema do bicheiro saiu de contratos da Construtora Delta, líder de repasses do governo na área do Ministério dos Transportes. Segundo a PF, Cachoeira seria “sócio oculto” da Delta, articulando negócios conjuntos com a empreiteira, discutindo planilhas de obras, compartilhando funcionários e, inclusive, despachando da própria sede da empresa. Um dos diálogos interceptados pela PF mostra como Cachoeira e a Delta fizeram um consórcio para a compra da empresa Ideal Segurança, responsável pela segurança de aterros sanitários controlados pela Delta, por R$ 199 milhões. Em outro grampo revelador, até agora inédito, descobre-se que o ex-diretor do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) Luiz Antônio Pagot foi monitorado clandestinamente por pelo menos dois anos. “Tem mais de um ano que o tal do Pagot tá no grampo, entendeu?”, conta o espião Dadá ao bicheiro, em 11 de julho de 2011. Questionado por ISTOÉ, Pagot confirmou que, quando estava no comando do Dnit, foi informado por um delegado amigo sobre a existência de grampos no gabinete em Brasília e em seu escritório em Cuiabá (MT). A deflagração da Operação Monte Carlo indica que Cachoeira trabalhou pela demissão de Pagot e da cúpula do Ministério dos Transportes. Agora, suspeita-se que a Delta pode ter tido acesso a informações privilegiadas de dentro do Dnit, responsável pelas maiores obras da empreiteira.
Sócio ou não da Delta, está cada vez mais claro que a empreiteira fazia a ponte com outras empresas do grupo de Cachoeira para facilitar o toma lá dá cá com o mundo político. A Delta também tem contratos em Anápolis, que abrangem obras rodoviárias e coleta de lixo. Nos contratos das duas empresas a PF vê o dedo do deputado federal Rubens Otoni (PT), flagrado em vídeo negociando com Carlinhos doação de R$ 100 mil para o caixa 2 de sua campanha eleitoral. Otoni, aliás, está na lista da PF de beneficiários do jogo do bicho. Foi denunciado que o senador Demóstenes Torres recebia 30% do faturamento da jogatina comandada por Cachoeira. Só que esse montante, na verdade, era repartido entre os deputados Leréia (PSDB), Jovair Arantes (DEM) e o próprio Rubens Otoni, segundo as investigações.
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