sábado, 1 de dezembro de 2012

PC AVANÇA NO RS


ZERO HORA 01 de dezembro de 2012 | N° 17270




PCC cobra dívida do tráfico internacional
Grupo prestaria serviços a quadrilha para se infiltrar em cadeias gaúchas

JOSÉ LUÍS COSTA

A maior facção criminal do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC), lançou uma nova estratégia para se infiltrar nas cadeias gaúchas: prestação de serviços a uma quadrilha internacional de entorpecentes. Na última semana foi descoberto que integrantes do grupo paulista estariam intermediando a cobrança de R$ 120 mil de um traficante gaúcho. O credor seria um distribuidor de drogas de um país vizinho, provavelmente, o Paraguai.

Por celular, o PCC teria cooptado apenados de Charqueadas para fazer “contato” com um traficante, recolhido na mesma cadeia e na mesma galeria (o nome da penitenciária não foi informado). À medida que a conta fosse paga, os executores da dívida ganhariam uma comissão em dinheiro ou, simplesmente, prestígio dentro da organização criminosa para eventuais novos “serviços”.

O episódio chegou ao conhecimento de autoridades da segurança pública, que decidiram transferir o traficante – o nome é mantido em sigilo –, para uma outra cadeia, mas o apenado teria negado a dívida e rejeitado a remoção. A preocupação se deve a dois motivos em especial: sufocar uma tentativa de o PCC se fixar no Rio Grande do Sul e também impedir um eventual assassinato do traficante – o que poderia representar a primeira morte dentro de um cadeia gaúcha por ordem da facção paulista.

A tática do PCC é mais um sinal da tentativa de expansão no Estado neste ano. Em abril, foram apreendidos no Presídio Central de Porto Alegre manuscritos contendo a cartilha com as regras e mandamentos da facção e anotações de rifas para captar dinheiro para o bando.

Um levantamento divulgado pelo jornal jornal O Globo mostra que o PCC já se espalhou por 21 estados, além do Distrito Federal. O dado faz parte de estudo da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) que identificou, nos primeiros nove meses do ano passado, “430 batismos” de novos seguidores do PCC pelo país. Os recordistas são Minas Gerais (90) e Bahia (56). No Rio Grande do Sul, seriam só seis novos adeptos. Detalhes do levantamento, como nomes dos presos e as cadeias, são mantidos em sigilo pela Senasp, que prefere não comentar o assunto.

114 paulistas estão hoje trancafiados no Estado

Ex-juiz da Vara de Execuções Criminais de Porto Alegre e juiz-auxiliar da presidência do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Luciano Losekann lembra que o PCC já tentou uma aproximação com o grupo Os Manos, do traficante Paulo Márcio Duarte da Silva, o Maradona (recolhido hoje à Penitenciária Federal de Catanduvas, no Paraná), mas os contatos não teriam passado de planos para assaltos e contratação dos mesmos advogados.

De acordo com levantamento da Susepe, existem 114 criminosos paulistas trancafiados no Estado. Mas a maioria deles não estaria articulada e não teria poder de arregimentar adeptos para a facção paulista.

– Os bandidos gaúchos ainda pensam em fazer um pé de meia e largar o crime, enquanto o lema do PCC é até a morte – diz uma autoridade que investiga as quadrilhas.


A facção no Estado

- Não existe um levantamento preciso sobre o número de presos ligados ao PCC no Estado. Segundo investigações da Polícia Civil, do Ministério Público e do Judiciário, a facção não ocuparia espaço dentro das cadeias e não teria domínio sobre criminosos nas ruas.

- Dos presos, apenas dois nomes são conhecidos como integrantes do PCC: o traficante de drogas Fabrísio Oliveira Santos, o Boy, 27 anos, e o assaltante Oséas Cardoso, o Português, 62 anos, ambos recolhidos na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc).

- Boy estava no grupo de 27 presos em flagrante cavando um túnel para furtar R$ 200 milhões de dois bancos Banrisul e Caixa Econômica Federal, há seis anos, em Porto Alegre. Fugiu para São Paulo enquanto cumpria pena por tentativa de furto, foi preso na capital paulista por envolvimento com tráfico de drogas e mandado de volta para a Pasc

- Envolvido em assaltos, em 2001, Português foi preso com 12 homens que pretendiam roubar R$ 5 milhões de um banco próximo ao aeroporto Salgado Filho, na Capital. Cinco anos depois, foi acusado do roubo de R$ 30 milhões de um banco, em São Paulo, e voltou a ser preso em Porto Alegre. Fugiu da cadeia em 2009, mas foi recapturado em 2010.

CARTAS APREENDIDAS NO PRESÍDIO CENTRAL

- No dia 5 de novembro, ZH divulgou o conteúdo de cartas apreendidas após buscas em celas no Presídio Central de Porto Alegre, que mostram a tentativa do PCC se estabelecer no Estado.

- Encontrada em abril após rastreamento de telefonemas de um paulista encarcerado na unidade e suspeito de extorsões fora da cadeia, a papelada revela o Estatuto do PCC, com regras estabelecidas pela facção aos criminosos. Entre os mandamentos, está a ameaça de que o bandido que estiver em liberdade e “bem estruturado”, não podem esquecer de contribuir com “os irmãos que estão na cadeia”, sob pena de ser “condenado à morte, sem perdão”.

- Um segundo documento apreendido no Presídio Central mostra como o PCC tenta arrecadar dinheiro. Uma das maneiras é por meio de rifas, usadas para custear despesas. Entre elas, pagamento de advogados, de cestas básicas para famílias de presos, transporte para familiares visitarem as cadeias e auxílio para doentes.