quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

DE BRAÇOS DADOS COM A MÁFIA

REVISTA ISTO É N° Edição: 2229 | 27.Jul.12 - 21:00 | Atualizado em 12.Jan.14 - 07:01

De braços dados com a máfia

Dois ex-ministros, um senador e mais sete autoridades italianas são acusadas de envolvimento na morte dos juízes Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, que combatiam o crime organizado

Flávio Costa



O presidente Giorgio Napolitano (à esq.) e o ex-ministro Nicola Mancino (à dir.)
foram gravados em negociações para escapar das novas investigações

Quatro dias antes de ser morto num atentado à bomba, em julho de 1992, o juiz italiano Paolo Borsellino tinha previsto para sua mulher: “Não será a máfia que irá me matar.” Ele se sentia acuado e traído desde maio daquele ano, quando uma explosão numa estrada da Sicília mandou pelos ares dois carros da comitiva do juiz Giavanni Falcone, o outro magistrado que, junto com Borsellino, representava a luta do país contra a máfia. Os assassinatos dos dois juízes foram imediatamente atribuídos à Cosa Nostra, a máfia siciliana. Mas nos últimos 20 anos não pararam de surgir indícios de que a previsão de Borsellino fazia sentido: havia também o dedo de autoridades por trás dos crimes. A descoberta das relações do crime organizado com o Estado italiano, que já rendeu dores de cabeça a muitos políticos, acaba de ganhar agora um novo e fundamental capítulo. Na quarta-feira 25, a promotoria de Palermo, na Sicília, denunciou o senador Marcello Dell’Utri, os ex-ministros Nicola Mancino e Calogero Mannino e outras sete pessoas que trabalhavam para o governo por conluio com os assassinos dos dois juízes. “Eles agiram para perturbar as atividades normais dos órgãos políticos do Estado”, diz a denúncia do Ministério Público.

Falcone e Borsellino eram os protagonistas do chamado “maxiprocesso”, quando, pela primeira vez na história, a temida Cosa Nostra foi desnudada em público. A investigação havia engrenado após a prisão no Brasil, em 1983, do mafioso Tommaso Buscetta, que ficaria conhecido como o primeiro dos “arrependidos” a colaborar com a Justiça italiana. Com o trabalho de Falcone e Borsellino foi possível conhecer os métodos, as formas de recrutamento, os ritos e crimes praticados. Também ficaram evidentes as ligações da Cosa Nostra com organizações criminosas internacionais e suas relações com políticos poderosos como Giulio Andreotti, por sete vezes primeiro-ministro da Itália, que chegou a ser condenado por associação mafiosa. Mas antes que ocorresse a conclusão do “maxiprocesso”, em 30 de janeiro de 1992, as dez autoridades agora acusadas pela promotoria de Palermo operaram para conseguir uma trégua com os mafiosos. Falcone e Borsellino se opuseram ao acerto, levando o processo até o fim, e por isso, segundo os promotores, foram eliminados “com a ajuda ou conveniência” das autoridades denunciadas. Em depoimento aos promotores, o ex-ministro do Interior, Nicola Mancino, entrou em contradição e chegou a omitir um encontro com Borsellino no mês de sua morte.


OS INIMIGOS DA MÁFIA
Os juízes assassinados Giovanni Falcone (à dir.) e Paolo Borsellino
lideraram o “maxiprocesso”, que desnudou a temida Cosa Nostra

As novas investigações acabaram respingando até sobre uma das mais prestigiadas figuras da atual política italiana: o comunista de velha cepa e presidente da República, Giorgio Napolitano. O atual presidente da Itália foi flagrado em conversas telefônicas com o ex-ministro Nicola Mancino. Nos diálogos, Mancino lhe pedia que intercedesse a seu favor na investigação da promotoria de Palermo. Sob o argumento de que não poderia ter sido grampeado por sua condição de chefe de Estado, Napolitano recorreu ao Tribunal Constitucional, a mais alta corte da Justiça italiana. “Eles feriram uma prerrogativa constitucional”, reclamou Napolitano. Há três anos, outra promotoria, a de Caltanissetta (Sicília), já havia reaberto a investigação da morte dos juízes, após a descoberta de novos documentos e testemunhos de mafiosos, os chamados “arrependidos”, que indicavam o envolvimento de altos servidores públicos nos homicídios. “Foram eles os assassinos, eu cansei de cobri-los”, afirmou, em juízo, o ex-poderoso chefão da máfia siciliana, Salvatore “Totó” Riina. Condenado a 18 prisões perpétuas e encarcerado desde 1993, ele acusou agentes do serviço secreto italiano de participar dos massacres. O novo processo deverá mostrar o quanto há de verdade nas declarações de Totó Riina.



MÁFIA E GANGSTERS








Um gângster é um membro de uma gangue de criminosos, como a máfia. 

Na década de 1920, este bandidos surgiram por causa do movimento da proibição da bebida alcoólica. O contrabando de bebidas faz com que as máfias crescessem tanto que passaram a ser um grande problema na década de 1920. O negócio de bebidas ilegais se tornou a base de um grande império criminoso. O ganster mais infame da época da Lei Seca foi Al Capone de Chicago, Illinois. Ele violentamente eliminou qualquer "competição" que ele tinha, então ele usou o comércio de álcool para criar um "negócio", que ganhou milhões de dólares. Com comportamentos violentos de Capone e disparada de negócios, ele, juntamente com outros gansters, foi capaz de assustar os policiais nos Estados Unidos e pagá-los para deixá-los sozinhos nos seus negócios.

O governo federal encontrava cada vez mais difícil competir com os gansters, mas ainda trabalhou diligentemente para capturar os bandidos e pôr fim aos seus crimes organizados. A década de 1920 tornou-se o ícone gangster americano do homem "self-made". Hoje, o gangster típico ainda é o número um consumidor de tudo de luxo e caro natureza. 

A Máfia é uma organização secreta organizada dito ser envolvido em contrabando, extorsão, trafico de entorpecentes e outras atividades criminosas. A Máfia existia principalmente na Itália, mas na década de 1920, os Estados Unidos tiveram seus problemas com máfias. A Máfia americana é pouco mais de meio século de idade, mas eles ainda têm impactado os EUA com o crime organizado. 

A Máfia estava no negócio de contrabando em 1920, mas em 1930 e 1931, quando a heroína foi proibida de uso nos Estados Unidos, uma guerra começou a explodir entre as máfias. Fora desta "guerra", uma nova geração de líderes saiu que tinha muito pouco ou nenhum respeito pelos valores tradicionais. Salvatore "Lucky" Luciano era o líder do Movimento da Juventude da máfia, ele é conhecido por ser um dos criminosos mais brilhantes da América moderna. Ele teve uma ideia para a modernização da máfia norte-americano, e conquistou os líderes dos 24 máfias na América. 

Logo depois, a National Commision estava funcionando "bem", o que prova que Luciano praticamente fez a máfia para a organização criminosa mais dominante. Esta ideia revolucionária de Luciano ainda é a base para o crime organizado hoje. 

Fontes: "A máfia nos Estados Unidos."Home | Drugtext. web. Maio 17, 2010.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

FACÇÃO PAULISTA GERENCIA NEGÓCIOS DO CRIME NO RIO


FOLHA.COM 30/12/2013 - 03h00

Facção criminosa paulista gerencia negócios do crime no Rio


MARCO ANTÔNIO MARTINS
DO RIO
JOSMAR JOZINO
DO "AGORA"


O PCC (Primeiro Comando da Capital) chegou ao Rio. A facção criminosa paulista, que já montou bases em 13 Estados e até no exterior, se aproximou das três facções cariocas e passou a cuidar de negócios do crime no Estado.

A colaboração entre quadrilhas dos dois Estados ocorre eventualmente há anos, mas agora os criminosos de São Paulo são presença constante em reuniões do CV (Comando Vermelho), da ADA (Amigos dos Amigos) e do TC (Terceiro Comando) no Rio.


Nelas, definem o envio de armas, dinheiro e drogas.

A influência cresceu tanto que os paulistas conseguiram convencer os cariocas a vender crack, droga que sempre evitaram nas favelas do Rio.

Em dificuldades financeiras desde os ataques de 2006, quando passou a ser estrangulado pela polícia, o PCC diversificou sua atuação.

No Rio, a ação mais efetiva vem sendo feita junto ao CV. A facção carioca teve dívidas de R$ 7 milhões perdoadas e alguns já batizam essa união de CV-Primeiro Comando.

Levantamento do Ministério Público paulista no sistema carcerário do Rio mostra que 38 internos cariocas já foram "batizados" pelo PCC -ou seja, passaram a integrar a facção. Há ainda 15 presos de São Paulo, ligados à quadrilha, cumprindo pena no Rio.

A preocupação de policiais e promotores dos dois Estados é que a parceria cresça.

A Secretaria de Segurança do Rio disse que "não comenta ou divulga informações sobre investigações". A de São Paulo não se pronunciou.

Até os criminosos do Rio estão preocupados com a presença do PCC. Os investigadores flagraram um recado do traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-mar, pedindo aos chefes do PCC que não "convertessem" os traficantes cariocas.

A partir do cruzamento de dados obtidos por promotores e policiais foi possível descobrir planos do PCC no Rio.

Do presídio de Presidente Venceslau (611 km de SP), chefes da facção decidiram, em conferências por celular, os caminhos da ação no Rio.

Em 2010, o PCC tinha dívida de R$ 4,5 milhões devido a apreensões de armas e drogas pela polícia. A facção decidiu então que era preciso criar uma base no Rio.

Assim, chefes ficariam escondidos no Estado e poderiam, das ruas, decidir os rumos da quadrilha, retirando o foco dos comparsas presos. Falam até em investir R$ 1 milhão na compra de uma casa.

Os planos para o Rio foram definidos em conversas de até duas horas que mostram Marcos Herbas Camacho, o Marcola, e Roberto Soriano, o Tiriça, dois dos chefes que estão presos, iniciando os contatos com ADA e CV.

Tiriça chega sugerir a paz entre as facções do Rio. Os traficantes do TC resistem à união das facções, mas sugerem uma "trégua" nas invasões de territórios.

Em um dos contatos, em outubro de 2010, Tiriça conversa do presídio com o traficante Antonio Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha, na época em liberdade -hoje está na prisão federal de Campo Grande (MS). Eles acertam a ida ao Rio de emissários do PCC.

Após a visita, em novembro, um traficante conversa por telefone com Soriano e outros três do PCC sobre a ida ao Rio. "O negócio é fora do comum. O bagulho é chique, é chapa quente. É um país. Não consegui nem contar [os fuzis] do tanto que tem."

Não demorou para que, mensalmente, oito criminosos do PCC passassem a ir ao Rio para treinamentos de tiro com a ADA.


Em conjunto, facções criminosas criam base fora do Rio
MARCO ANTÔNIO MARTINS
DO RIO


Com apoio do PCC, o Comando Vermelho montou uma base em Itaboraí, na região metropolitana do Rio. De lá, distribui cocaína e crack para diferentes partes do Rio.

Em depoimento em setembro no Rio, o traficante Rodrigo Prudêncio Barbosa contou que a facção paulista fornece cocaína para a carioca.

Parte é enviada a um laboratório clandestino num sítio na favela da Reta, em Itaboraí -a 5 km do Comperj, o complexo petroquímico que está sendo construído pela Petrobras com investimento estimado em R$ 20 bilhões.

Lá, uma quantidade é preparada para ser vendida como pó; o restante vira pedras de crack. Ainda conforme o depoimento, a proprietária do sítio foi expulsa dali pelo CV.

Documentos da contabilidade do tráfico apreendidos registram a movimentação de R$ 1 milhão por mês nas bocas de fumo da favela da Reta, que tem 25 mil habitantes.

"A facção transformou aquele local em sua base. Abrigam fugitivos dos morros ocupados na capital e distribuem drogas", afirma o delegado Wellington Vieira, da Divisão de Homicídios.

O local pode ter sido escolhido por ficar longe do projeto das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), que já se instalou em 34 favelas no Rio, mas não tem previsão de ser implantado fora da capital.

Na favela, os traficantes montaram barreiras para dificultar o acesso. Armados, patrulham a área em motos.

Em julho, tentaram resgatar um de seus chefes, que está num presídio federal e era levado para depor na Justiça. Um agente penitenciário acabou morto por tiros de fuzil.

"A violência em Itaboraí cresceu bastante com as armas que chegaram na favela", disse o juiz Marcelo Villas, que atuou na cidade.


sábado, 21 de dezembro de 2013

65 QUILOS DE COCAÍNA TRANSITANDO NO CENTRO DE POA

21 de dezembro de 2013 | N° 17651

TRÁFICO NA CAPITAL

PF apreende 65 quilos de coca no Centro



Seguindo informações de que uma quadrilha receberia um carregamento de cocaína no começo da tarde, no centro de Porto Alegre, a Polícia Federal apreendeu 65 quilos da droga, que estavam em um carro abordado pelos agentes. Outro veículo, que servia como batedor do carregamento, também foi apreendido.

Três pessoas foram presas no local, um estacionamento situado próximo à Estação Rodoviária. Conforme a polícia, a droga era proveniente do Paraguai e estava escondida debaixo do assoalho do veículo.

Com a apreensão, o departamento estadual da Polícia Federal chegou a uma marca histórica de 1,02 tonelada de cocaína apreendida neste ano no Rio Grande do Sul. Há pelo menos 10 anos esta quantidade não era registrada pela PF.

Também ontem, o tráfico recebeu outro duro golpe na região metropolitana de Porto Alegre. Um dos principais fornecedores de crack da região, de acordo com a polícia, Jonas Rocha Pereira foi preso pelo Departamento de Investigações do Narcotráfico (Denarc), no bairro Piratini, em Alvorada.

Pereira, 37 anos, já havia sido alvo de investigação da Polícia Federal no ano passado e tinha um mandado de prisão contra si.

Na madrugada de ontem, Pereira foi capturado por agentes da 4ª Delegacia do Denarc, na companhia de um comparsa, que seria seu distribuidor de drogas. Além de dois veículos, foram apreendidos com a dupla 11 quilos de crack.

POLÍCIA URUGUAIA EXTRADITA TRAFICANTE BRASILEIRO


ZERO HORA 21 de dezembro de 2013 | N° 17651

NA LISTA DA INTERPOL

Polícia uruguaia extradita o traficante Paulo Seco. Antes de ser capturado, bandido chegou a ficar foragido durante 14 anos



A polícia do Uruguai extraditou ontem o narcotraficante gaúcho Paulo Vieira de Mello, o Paulo Seco, preso no país vizinho ao Brasil desde 2010. O nome de Paulo Seco constava em um alerta de captura internacional enviado pela Interpol para cerca de 130 países, chamado Difusão Vermelha.

Antes de ser capturado, o traficante ficou foragido durante 14 anos e já havia sido condenado pela Justiça Federal por tráfico de drogas. Entregue às autoridades brasileiras na cidade de Santana do Livramento, ele foi conduzido à Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc).

A organização comandada por Paulo Seco teria atuação na Bolívia, no Paraguai e no Brasil e seria vinculada ao criminoso Fernandinho Beira-Mar, do Comando Vermelho. No Rio Grande do Sul, o grupo estaria ligado aos traficantes gaúchos Ney Machado e Juraci Oliveira da Silva, o Jura.

De acordo com a polícia, caberia ao grupo de Paulo Seco a operação de transporte da droga até o território gaúcho, geralmente com a utilização de aviões. Na época da prisão, mesmo com a suspeita de que ele pretendia abandonar o país com destino desconhecido, as pesquisas policiais apontaram que o narcotraficante iria comprar uma luxuosa propriedade usando como nome o seu próprio apelido – Paulo Seco.

Além dele, a polícia uruguaia extraditou outro criminoso, que não teve o nome divulgado. O homem é suspeito de tráfico de drogas e estava na lista de detidos da Operação Ibéria, deflagrada pela Polícia Federal (PF) em 2012.



ZERO HORA 08/06/2010 | 17h57

Começa processo de extradição de Paulo Seco. Solicitação será encaminhada ao Ministério da Justiça depois de tradução de documentos para o espanhol


Traficante estava foragido desde 2000 (foto de arquivo)Foto: Dilvugação


Justiça Federal de Passo Fundo decidiu, no fim da tarde desta segunda-feira, começar o processo de extradição do traficante Paulo Seco, que foi encontrado no Uruguai. O juiz federal Eduardo Gomes Philippsen solicitou ao diretor da Seção Judiciária do Rio Grande do Sul a urgência na tradução dos processos envolvendo o criminoso para o espanhol, passo necessário para dar continuidade aos trâmites.

Quando os documentos forem traduzidos, será encaminhada imediatamente ao Ministério de Justiça, em Brasília, uma solicitação para que o pedido de extradição seja feito à instituição uruguaia responsável. A expectativa da Justiça Federal de Passo Fundo é que as traduções fiquem prontas até a semana que vem.

De acordo com informações da Justiça, a extradição de Paulo Seco pode demorar para acontecer. A Justiça uruguaia não tem prazo para tomar a decisão. Como o traficante utilizava identidade falsa no país vizinho, é possível que as autoridades do Uruguai só o deportem após a conclusão do processo movido contra ele.

Em gráfico, veja as conexões de Seco na América Latina:




Paulo Seco, de 41 anos, foi preso durante o final de semana no Uruguai. Ele é acusado de ser chefe de uma organização que fornece drogas ao Comando Vermelho (facção carioca) e para o Estado. A especialidade do bando é lançar cargas de cocaína e maconha, por meio de aviões, em lavouras, onde o produto é levado a pontos de distribuição. Foi por um desses lançamentos que Paulo Seco foi condenado, em 2006, a 11 anos de reclusão. Ele estava foragido desde 2000.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

MULTINACIONAL DO CRIME

ZERO HORA 19 de dezembro de 2013 | N° 17649


Polícia no rastro dos bens de organização


Depois de prender os principais líderes de uma organização com conexões no Paraguai e no Uruguai, na última terça-feira, agora o Departarmento Estadual de Invegestigações do Narcotráfico (Denarc) pretende seguir o rastro do dinheiro dos traficantes.

Ontem, foi aberto o inquérito por crime de lavagem de dinheiro. Também já foram pedidos à Justiça os bloqueios de seis contas bancárias vinculadas aos líderes ou a “laranjas” já identificados. De acordo com o delegado Mario Souza, apenas durante a ação de terça foram apreendidos em torno de R$ 200 mil entre notas de reais, dólares e euros. Oito veículos foram apreendidos. Em dois anos de investigação, 56 pessoas foram presas.

ZERO HORA 18 de dezembro de 2013 | N° 17648

THIAGO TIEZE

Quadrilha agia no Uruguai e no Paraguai

Organizado em uma espécie de consórcio, bando desarticulado ontem era especializado em roubo e clonagem de veículos, tráfico de drogas e de armamento pesado e assaltos a bancos na serra gaúcha



Após dois anos de investigações, a Polícia Civil conseguiu desarticular uma quadrilha que agia em pelo menos 19 cidades do Rio Grande do Sul. Responsáveis por traficar armas e drogas em quase todas as regiões do Estado, os criminosos chegavam a movimentar R$ 2 milhões em um mês.

Oritual do bando, de comprar drogas no Paraguai e armas no Uruguai, não é novidade, mas a distribuição dos bandidos e o alcance da quadrilha chamaram a atenção da polícia.

– Atingimos o primeiro e o segundo escalões do bando. Acreditamos ter dado um duro golpe numa cadeia de crimes – afirma o delegado Mário Souza, da 1ª Delegacia de Investigação do Narcotráfico (DIN) do Departamento Estadual de Investigaçõs do Narcotráfico (Denarc).

A Operação Expansão, realizada na manhã de ontem, conseguiu prender 42 pessoas, ao longo da investigação outras 14 já haviam sido presas. Nesse período, segundo Souza, o grupo criminoso teria participado do assalto a uma fábrica de joias em Cotiporã, na serra gaúcha, no final de dezembro do ano passado, quando três bandidos acabaram morrendo em confronto com a Brigada Militar.

O mesmo bando ainda teria participado do assalto a agências do Banrisul e do Sicredi em Pedras Altas, na Região Sul, realizado em abril deste ano, além de tentar sequestrar um empresário em Vera Cruz, no Vale do Rio Pardo. Considerado um grupo grande, a quadrilha contava com pelo menos 11 líderes, que negociavam as ações criminosas. De acordo com a investigação, o grupo mantinha contatos com organizações criminosas de fora do Estado.

Segundo apontou a investigação, os bandidos clonavam carros que, por meio de uma duas revendas no Vale do Sinos, eram trocados por drogas no Paraguai. Com o dinheiro adquirido no tráfico de entorpecentes, eles compravam armas pesadas no Uruguai (fuzis, rifles e pistolas) e distribuíam para os integrantes da quadrilha no Estado, ou ainda, alugavam e revendiam para outros bandos.

– A especialização dos líderes, que respondiam ou pelas armas, ou pelas drogas, ou ainda pela contabilidade, demonstra a organização de uma grande rede de crimes, alimentados, de uma forma ou de outra, pelo tráfico – define o delegado Heliomar Franco, diretor do Denarc.


Executivos do tráfico

CARLOS WAGNER

A paciência é o pilar da investigação. A Operação Expansão é uma das raras ocasiões em que a polícia consegue derrubar os cabeças, como são definidos os donos do capital, das armas e das estratégias que determinam os alvos a serem atacados pelas quadrilhas.

Esses homens presos operam nas sombras. Os chamados “capangas” (ou “operacionais”) são os bandidos que atacam os alvos, geralmente jovens em busca de aventura e de dinheiro fácil. É muito comum ouvir, pelos corredores das delegacias, a expressão “enxugar gelo” para descrever a continuidade dos crimes, que é creditada às leis que tratam com pouca severidade os criminosos. Eis um lado da questão.

O outro é que as pessoas presas simplesmente já haviam substituído os capangas que foram presos durante assaltos anteriores e assim por diante. Desta forma, foram precisos dois anos, e muita paciência, para a polícia conseguir desarticular esse grupo. Mas o trabalho ainda não está completo. Será preciso mais uma dose de paciência para conhecer e esmiuçar o sistema de lavagem de dinheiro que eles montaram.

Se esse sistema não for destruído, o dinheiro continuará abastecendo esses criminosos. E mesmo na cadeia eles continuarão financiando o crime. Aliás, o sistema de comprar armas no Uruguai e drogas no Paraguai, usando como moeda de troca carros clonados, não é novo. Seguindo a lógica do crime, um outro grupo de financiadores de criminosos deve substituir o que foi preso. Destruir esse sistema é o sonho de consumo dos policiais. A Operação Expansão foi uma pedrada bem dada nos “cabeções”.


Investigação durou dois anos

As investigações da 1ª Delegacia de Investigação do Narcotráfico (DIN) do Departamento Estadual do Narcotráfico (Denarc) apontaram que a quadrilha lavava o dinheiro do crime em uma rede de lojas administras por comparsas.

Conforme a polícia, o lucro resultante do tráfico e de assaltos era investido em revendas de carros no Vale do Sinos, padarias, confeitarias, cafeterias e lojas de roupas na Capital, Região Metropolitana e Vale do Taquari. Somente em um mês, com esse sistema, os traficantes teriam movimentado R$ 2 milhões.

De acordo com o delegado Mário Souza, da 1ª DIN do Denarc, a investigação começou após a prisão de um traficante em Eldorado do Sul, na Região Metropolitana. A partir desta prisão, o esquema começou a ser mapeado pelos agentes.

Ao longo do monitoramento, a polícia conseguiu identificar pelo menos 11 líderes na quadrilha, sendo três responsáveis individualmente pelas armas, drogas e contabilidade, e outros oito chefes regionais do bando, que somente não atuava na Fronteira Oeste e região Norte.

Comando Vermelho e PCC auxiliavam grupo no Estado

Na ação, a polícia conseguiu prender criminosos suspeitos de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC), criada a partir dos presídios de São Paulo, e com o Comando Vermelho (CV), que atua no Rio de Janeiro e controla o tráfico de drogas as favelas cariocas. Eles também teriam participado de ações como o assalto em Cotiporã, no final de 2012.

– Essa quadrilha mantinha contato com outras organizações criminosas, mas aparentemente não era auxiliada por elas – afirma o delegado Souza.

O próximo passo é identificar as contas bancárias do bando e todas as empresas utilizadas pela quadrilha para lavar dinheiro. Até o momento, já foram mapeadas seis contas, mas a polícia acredita que haja outras. Ao todo, a Operação Expansão, realizada na manhã de ontem em 16 municípios, resultou na prisão de 56 pessoas ao longo de dois anos. Sessenta quilos de maconha, 5,5 quilos de crack e 2,5 quilos de cocaína, além de espingarda, pistola 9 milímetros, munição, dinheiro e carros foram apreendidos.

Pouco antes da operação ter iniciado, os policiais realizaram um minuto de silêncio em homenagem a dois colegas mortos recentemente: Carlos Heitor Bossler, 58 anos, assassinado ao reagir a um assalto no bairro Santo Antônio, e Marcos Kaefer, 43 anos, morto após ser atingido, em frente a um hospital, por um tiro disparado por um PM em Alvorada.


sábado, 7 de dezembro de 2013

O BRASIL, UMA NARCOCRACIA

 PORTAL BRASIL 247 - 30 DE NOVEMBRO DE 2013 ÀS 06:10
http://www.brasil247.com/pt/247/artigos/122488/O-Brasil-uma-narcocracia.htm


CHIQUI AVALOS

Os brasileiros vão descobrir que não são diferentes da Colômbia, do Paraguai, da Argentina, do Peru, do Panamá. Quem sabe, o Brasil seja até pior, bem pior, com uma narcocracia reinante na política, na economia, na imprensa. Silenciosamente reinante

A história da América Latina, lamentavelmente, se confunde com a do narcotráfico. Rios de dinheiro irrigaram (e irrigam) campanhas eleitorais, corrompem governos, compram a imprensa e desgraçam a sociedade dando vazão as suas piores facetas e práticas.

Na velha e sofrida Bolívia os produtores e traficantes foram tão longe que financiaram um sangrento golpe de estado, mataram dezenas de lideranças políticas, sindicais e populares e – incrivelmente – entronizaram um bandido fardado, o coronel Alberto Natush Bush, como primeiro mandatário do país. O célebre "narco-presidente", um homem estúpido e militar caricato conhecido por sua declarada admiração a Hitler, passou rápido pelo Palácio Quemado: foram 16 breves e tormentosos dias em que os chefões do tráfico e da produção de cocaína manejaram um país só para eles. Natush terminou defenestrado e preso. Mal poderia imaginar que quase três décadas depois um indígena ocuparia o mesmo lugar e defenderia o plantio das folhas de coca – matéria básica do fabrico da cocaína – como sendo uma "questão cultural". Evo Morales chega a dizer que a Coca-Cola produzida pelos americanos é tão nociva quanto a coca plantada e colhida por seus compatriotas.

No Peru de Fujimori, seu homem-forte fez uma ponte segura com o narcotráfico. Em seu bunker no comando do exército, o coronel Vlademiro Montesinos protegeu um dos maiores narcotraficantes de que se tem notícia, Demetrio Chávez Peñaherrera, o famosíssimo "Vaticano", nos tempos em que exerceu o poder numa espécie de co-presidência. "Vaticano" inundou o mercado norte-americano com milhares de toneladas de cocaína de alta pureza, transportando-as com a cobertura das próprias forças armadas peruanas e dos organismos policiais que tinham a função de reprimir os traficantes. Boa parte das dezenas de jornais que brotaram como cogumelos nos anos da ditadura fujimorista, caluniando impiedosamente os inimigos do regime em manchetes amorais, eram pagos com maços de dólares entregues por Montesinos e vindos do tráfico internacional de drogas. Vídeos que provocaram a queda do então presidente, mostravam a desenvoltura de jornalistas, deputados, empresários e artistas que iam receber – pessoal e alegremente – a mesada paga pelo apoio recebido. Hoje são escassos os metros que separam as duas celas, de insuportável calor e de concreto-armado, ocupadas no inexpugnável complexo penitenciário de Callao pelo ambicioso Montesinos e seu sócio, o frio e deplorável Alberto Fujimori, o "Chino".

Um cunhada de Carlos Menem, sua poderosa secretaria pessoal na Casa Rosada durante os anos áureos do poder e queridinha da irmã e então primeira-dama Zulema Yoma, envolveu-se com o tráfico internacional. Amira Yoma, arrogante e certa da impunidade, nomeou o marido para a chefia da fiscalização da aduana do aeroporto de Ezeiza, o mais importante da Argentina. E assim, o sírio Ibrahim Al Ibrahim, que não falava uma única palavra de espanhol, garantiu a passagem de centenas ou milhares de malas contendo dólares, armas, jóias e – principalmente – cocaína. A prisão preventina de Amira, decretada por uma desavisada juíza portenha, durou pouco; o maridão voltou para Damasco numa fuga organizada pelo próprio governo Menem e, pouco tempo depois, apesar da estrondosa repercussão do "Narcogate" (um dos maiores escândalos das centenas que espoucaram na década do mafioso neo-liberal), Amira estava de volta aos círculos mais íntimos do poder, com a mesma arrogância e a mesma força de antes.

Um dos estratagemas do governo menemista para abafar o escândalo, foi uma calculada operação policial contra Diego Maradona, que cheirava cocaína com amigos em um apartamento. Ironia das ironias, o craque havia sido um gratuito e entusiasmado cabo-eleitoral do gatuno peronista. Anos depois, os filhos do brigadeiro chefe da Casa Militar do mesmo Carlos Saul Menem, foram detidos no aeroporto de Barajas, em Madri, com mais de uma tonelada de cocaína escondida na estrutura de um jatinho particular, pilotado por um deles. Menem nada pode fazer para ajudá-los, já que recolhido em prisão domiciliar em sua La Rioja, uma das províncias mais pobres e calorentas do pobre e calorento norte argentino.

Dino Bouterse, filho do ditador Desi Bouterse, do Suriname, foi preso em agosto passado pelas autoridades do Panamá. Acusação: chefia de uma quadrilha internacional de traficantes de drogas. Dois dias depois, um juiz de Manhattan pedia sua extradição para os EUA, prontamente concedida. Dino, um sujeito arrogante de apenas 40 anos, amante de Ferraris potentes e lindas mulheres, já havia sido condenado a oito anos de prisão no próprio Suriname em 2005, por liderar uma gang de tráfico de armas e drogas, mesmo com papai sendo o ditador. Saiu da cadeia em 2008 por bom comportamento, e logo depois, o atlético e vaidoso jovem foi nomeado pelo generoso genitor para a chefia de uma poderosa e violenta Unidade Antiterrorista. Herança genética: nos anos 80 o presidente brasileiro João Figueiredo, a pedido dos EUA, enviara o general Danilo Venturini, seu homem de confiança, para enquadrar Bouterse pela conhecida operação de laboratórios de refino de cocaína nas selvas surinamesas em conjunto com os cartéis colombianos. Não obteve nenhum sucesso, pois não? Hoje, como naqueles já distantes anos, Bouterse manda no Suriname. Nada indica que continue aliado aos traficantes, mas seu filho está numa jaula na Ilha de Manhattan e é muito provável que de lá não saia jamais. C'est la vie...

Na rica Colômbia, terra de grandes valores culturais, de abundantes riquezas naturais e de uma sólida democracia, nada disso conseguiu superar a má fama alcançada pela verdadeira simbiose que existiu entre o país e a cocaína. Os cartéis de bandidos das ricas cidades de Medellín e de Cali reinaram por décadas, incrustrados no tecido social, financiando presidentes, governadores, senadores, deputados, prefeitos, artistas, clubes esportivos, equipes de futebol, sindicatos de trabalhadores, chefes militares, policiais, igrejas, rainhas da beleza, grêmios estudantis, toureiros... Ufa! Pablo Escobar, do violento Cartel de Medellín, e os irmãos Rodriguez Orejuela, do sofisticado Cartel de Cali, enfim, financiaram a Colômbia inteira. Até que o governo começasse a deportá-los para os EUA (com cadeias perpétuas mais que certas), debaixo de pressão direta da Casa Branca através de duros embaixadores que constituíram autênticos governos paralelos na fria e cinzenta Bogotá, os marginais da droga mandavam e desmandavam numa Colômbia intranquila, amedrontada e banhada em sangue. Um senador, Alberto Santofimio, era conselheiro oficial de Escobar. E um presidente democraticamente eleito, Ernesto Samper, foi vitorioso numa dura disputa em segundo turno por conta de um avião cheio de caixas de dinheiro que lhe enviaram os de Cali, no famoso "vuelo de la plata" que quase lhe causou um impeachment através do rumoroso "Processo 8.000". Foi preciso um homem duro e sem medo, o antipático e competente Alvaro Uribe, para (e apenas em meados da década passada) acabar definitivamente com os grandes cartéis e, de quebra, cortar a cabeça da guerrilha das FARC. Os sanguinários bandoleiros foram caçados como ratos, embrenhando-se na selva da Amazônia equatoriana e na rica fronteira nos Andes venezuelanos. Descobriu-se após um bombardeio ao acampamento das FARC no Equador, com a captura do laptop de um dos chefões mortos, estreitos laços com o regime bolivariano do falecido Hugo Chávez e comunicação direta com próceres do governo de Rafael Correa. Os cartéis financiavam o terrorismo, que era protegido pelos presidentes da Venezuela e do Equador. Que tal?

Nos anos 80 os barões da droga colombiana operavam fortemente com o regime sandinista. Aviões saiam do interior da Colômbia e faziam escala na Nicarágua, onde o próprio Pablo Escobar supervisionava o transbordo das cargas de toneladas de coca com destino ao mercado norte-americano. Tudo documentado em fotos pela DEA, o organismo anti-drogas dos EUA. E dentro de bases da Força Aérea sandinista!

Os barões da droga colombiana teriam celebrado um pacto comercial com o regime dos irmãos Castro, na mesma época, e a ilha de Cuba passou a ser um porta-aviões dos cartéis. Toneladas de pó passaram por aeroportos secundários, em Varadero, Santiago de Cuba e Piñar del Rio. No amanhecer de 13 de julho de 1989, o corpo de Arnaldo Ochoa, o mais condecorado dos generais de Fidel, caiu crivado por balas diante de um pelotão de fuzilamento. Herói da campanha em Angola, Ochoa foi eliminado pela nomenclatura cubana sob a acusação de tráfico de drogas. Para a DEA foi uma maneira de Fidel eliminar um aliado popular e respeitado que poderia lhe trazer problemas num futuro não muito distante, disputando sua sucessão com seu irmão Raul Castro, um homem despojado do carisma que transbordava em Ochoa. E, sobretudo, a queima de um arquivo importantíssimo: o general teria, realmente, participado das operações dos traficantes, mas como representante da ditadura, organizando embarques e desembarques como uma "missão militar". Ao matá-lo o eterno ditador sinalizou ao mundo exatamente o contrário da realidade.

Meu Paraguai não fica longe ou fora de tão tristes realidades. Na tríplice fronteira, entre nossa Ciudad de Leste, Foz do Iguaçu e a cidade argentina de Iguazú, existiria um mundo paralelo, bilionário e perigoso, com bases dos terroristas árabes e de narcotraficantes internacionais. Só as autoridades dos três países parecem não saber ou acreditar nessa dura realidade. Até as águas que rolam na bela cachoeira estão cansadas de saber que aquela é uma das esquinas mais perigosas do mundo do crime.

Poucos dias depois da posse do industrial, banqueiro e dirigente esportivo Horácio Cartes na presidência da República, em agosto passado, o Paraguai foi sacudido com uma informação até então guardada debaixo de sete chaves: o tio do novo ocupante do Palácio de Lopez, eleito numa campanha milionária e bem-sucedida, foi preso no Uruguai pilotando um pequeno avião. A carga de mais de 400 kg de maconha foi descoberta quando caças da Força Aérea o obrigaram a pousar numa base próxima à Montevideo. Juan Domingo Viveros Cartes já havia cumprido pena como traficante, só que transportando grandes partidas de cocaína. Sua história se confunde com a do general Andrés Rodriguez, comandante do exército durante a ditadura de Alfredo Stroessner. Viveros Cartes foi o fiel piloto particular de Rodriguez, que viria a ser presidente ao derrubar Strossner. Só como presidente do Paraguay e aceitando aderir às duras políticas anti-droga da DEA, o general teve um visto para entrar nos EUA: os ianques o apontaram durante toda a vida como o cabeça do narcotráfico naquele velho Paraguay, onde Stroessner dividia os setores da economia entre sua camarilha para poder reinar. A droga ficou estabelecida como um mercado exclusivo do general Andrés Rodriguez.

Escrevi um livro sobre o atual presidente paraguaio Horácio Cartes. Sem uma única acusação, apenas recordando fatos acontecidos, republicando documentos propositadamente esquecidos, jogando luz sobre a obscuridade de informações mal divulgadas ou cometendo a temeridade de dizer em voz alta o que todos os que fingem desconhecer a realidade, porém, comentam em voz baixa, recolhidos ao medo ou a covardia pura e simples. "La Otra Cara de HC" foi um dos livros mais vendidos na história do Paraguai. Poucas livrarias tiveram a audácia de expô-lo em suas vitrines e estantes. As que o fizeram ganharam um bom dinheiro com as filas que se formaram para comprar os exemplares disputados por cidadãs e cidadãos que, impedidos de derrotar Cartes tanto pelo poder do seu dinheiro quanto pela máquina azeitada do secular Partido Colorado, buscaram conhecer o que viria pela frente...

O delegado Romeu Tuma, o velho e saudoso amigo a quem dedico meu livro, ajudou-me em seus tempos de diretor da Polícia Federal brasileira a desvendar os mistérios que cercavam (e ainda cercam) o atual presidente Horácio Cartes e seu envolvimento com a lavagem de dinheiro através de sua casa de câmbio, a Amambay, hoje transformada em um poderoso banco comercial. Percorri os caminhos que me levaram a esclarecer os laços que o uniram a personagens inequivocamente relacionados ao submundo do contrabando e da lavagem de dinheiro dos traficantes. Relacionar o atual presidente diretamente ao narcotráfico não o fiz, mas desvendei os mistérios que o cercam e as personagens que, essas sim, deveriam estar atrás das grades. O respeitado presidente uruguaio Pepe Mujica, conhecido pela sinceridade desconcertante, chegou a disparou durante a campanha eleitoral uma frase reveladora: "O Partido Colorado é um narcopartido".

Agora o Brasil se vê às voltas com um escândalo de dimensões internacionais: um helicóptero de propriedade de uma empresa, cujo dono é um deputado filho de um senador, comandado pelo piloto que é funcionário do gabinete do deputado e abastecido com combustível pago por verbas oficiais do filho deputado e do pai senador, foi surpreendido pela polícia numa fazenda de propriedade do senador pai e do filho deputado, descarregando quase meia tonelada de cocaína. E a grande mídia brasileira, num silêncio gritante, sequer noticia com destaque o claro envolvimento de ambos – direta ou indiretamente, pouco importa! – com o tráfico de cocaína. O culpado será o mordomo aéreo? Claro que não.

Se em todos os países citados – e mais alguns outros, como no caso do prefeito de Toronto, surpreendido usando crack, ou o ex-prefeito negro de Washington, filmado cheirando com uma prostituta em uma suíte de hotel cinco estrelas – há o envolvimento de políticos, viciados ou traficantes, por qual razão no Brasil seria diferente? Os principais suspeitos, com claros e veementes indícios de envolvimento direto, são o papai senador e seu filhote deputado. E mais suspeita é a imprensa que se cala, não investiga, tergiversa e mente.

No Brasil de 1989 falava-se em voz baixa de uma provável ligação do então candidato presidencial Fernando Collor com as drogas. Ele seria um usuário. Ninguém o confrontou ou, ao menos, pediu-lhe esclarecimentos. Fez um governo controverso, comportou-se como um louco, caiu debaixo de um escândalo de grandes proporções depois de denúncias (comprovadas, aliás) feitas pelo próprio irmão. E foi Pedro Collor quem disse o que o Brasil não teve coragem de lhe perguntar, chegando ao detalhe sórdido: o irmão presidente usaria supositórios de cocaína. Quem quiser usá-los que os use, mas não pode ser presidente, ok? Todo e qualquer político sob o qual pairar a suspeita de ser usuário e adicto de drogas, está impedido de ser presidente de seu país. Alguém ouviu falar que Mandela, Roosevelt, Getúlio ou Perón cafungavam carreiras?

Já se passou muito tempo e ninguém mais se lembra de que Rondônia é ou foi uma narco-província, onde o falecido senador Olavo Pires foi executado por pistoleiros profissionais, com o corpo partido ao meio por tiros de submetralhadora, num aparente acerto de contas dos cartéis colombianos com alguém que, ao que tudo indica, lavava dinheiro do tráfico internacional em empresas de sua propriedade. Sua fortuna (aviões, fazendas, revendas de automóveis e máquinas pesadas) brotou de um dia para o outro e todos acharam muito normal isso, inclusive dando ao pilantra um mandato no Senado da República.

O mais competente senador paraguaio, o colorado Kalé Galaverna, político corajoso que rompeu com Stroessner quando o ditador ainda era o dono de nosso país, subiu à tribuna do senado e acusou o falecido general Lino Oviedo de ser ligado ao narcotráfico. De quebra, envolveu o então governador do Paraná Roberto Requião, amigo pessoal de Oviedo e que seria seu sócio nas atividades ilícitas. O general, tão belicoso quanto Galaverna, não respondeu e fingiu não ser com ele. Requião, idem. Todo e qualquer homem público acusado de ligação com o tráfico ou de usuário de drogas tem o dever de esclarecer a situação e processar os acusadores. O silêncio é, em tese, uma confissão de culpa.

Há no interior do Brasil (como da Argentina e do Paraguai) uma infinidade de novos ricos, de potentados donos das cidades onde vivem, com carrões luxuosos, grandes fazendas e empresas prósperas, aviões e helicópteros (sempre, sempre!), e ninguém lhes pergunta a origem de fortunas tão grandes e constituídas tão rapidamente. Ao contrário, são festejados. Pois vieram do pó e ao pó sempre voltarão. Só as autoridades, o governo, a imprensa e a sociedade não sabem, ou fingem não saber.

A queda do narco-helicóptero em mãos das autoridades policiais, a descoberta de meia tonelada de pó, a estranha situação funcional do piloto da família, a origem nebulosa da imensa fortuna do senador Perella (dirigente mafioso de um time de futebol, o Cruzeiro), o combustível pago com dinheiro público, o silêncio indecente da grande mídia brasileira, tudo isso, tudo, tudo mesmo, é apenas a confirmação de que o caso precisa ser investigado, e bem investigado. Aí, então, os brasileiros vão descobrir que não são diferentes da Colômbia, do Paraguai, da Argentina, do Peru, do Panamá. Quem sabe, o Brasil seja até pior, bem pior, com uma narcocracia reinante na política, na economia, na imprensa. Silenciosamente reinante.

(*) Chiqui Avalos é jornalista e escritor paraguaio, correspondente do Brasil247 no Mercosul.