quarta-feira, 10 de julho de 2013

O PCC SERÁ DERROTADO, DIZ MINISTRO DA JUSTIÇA


"O PCC será derrotado", diz ministro da Justiça

Em entrevista ao iG, José Eduardo Cardozo afirmou que crise de relacionamento do Planalto com governo tucano foi superada

Vasconcelo Quadros e Clarissa Oliveira - iG Brasília | 24/01/2013 18:55:10



O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse, em entrevista ao iG , que a Polícia Federal e os órgãos de segurança de São Paulo estão vencendo a guerra contra o PCC. “Vamos derrotar a organização”, afirma o ministro.

Segundo ele, com equipamentos, inteligência e ações conjuntas, as polícias estão “minando” o poder de fogo da organização que controla roubo e tráfico de dentro das cadeias, mata policiais e assombra a população paulista desde 2001.

O cerco aos criminosos está sendo feito por meio de investigações e operações nas estradas, aeroportos e, em breve, nos portos paulistas. O objetivo é enfraquecer o PCC e as demais quadrilhas que atuam também em outros Estados.

O Ministério da Justiça está ajudando a combater o uso de celulares nas cadeias e implantará no Estado seu programa de controle do crack e tratamento de viciados.

Além de uma agência de inteligência que já reúne na mesma sala policiais federais e estaduais, ainda este ano serão entregues a São Paulo equipamentos de comunicação para montar o Centro de Comando e Controle, o primeiro passo da sinergia entre os órgãos de segurança.

Cardozo sustenta que a Copa do Mundo deixará como legado “um avanço de décadas” no padrão de segurança pública. Com os equipamentos e a experiência que surgirão do evento, o governo executará a partir de São Paulo um plano nacional contra o crime cujo carro chefe será a integração das polícias.

Cardozo diz que a crise de relacionamento com o governo tucano foi superada depois do diálogo entre a presidente Dilma Rousseff e o governador Geraldo Alckmin no ano passado.









    NADA ACONTECE NAS PRISÕES QUE NÃO PASSE PELA INTERMEDIAÇÃO DO PCC


    Nada acontece nas prisões que não passe pela intermediação do PCC, diz socióloga

    Autora de livro conta como facção que nasceu em presídios se espalhou pelo País. ‘Não somos uma organização criminosa. Somos uma organização de criminosos", diz integrante

    Vasconcelo Quadros - iG São Paulo | 23/05/2013 12:22:02 - Atualizada às 23/05/2013 12:33:30


    Escrito depois de quatro anos e meio de pesquisa, o livro PCC - Hegemonia nas Prisões e Monopólio da Violência (Editora Saraiva, 415 páginas, R$ 118,00), da socióloga Camila Caldeira Nunes Dias, da USP, mostra que o governo de São Paulo vem sendo derrotado pelo crime organizado. Consolidado depois de 20 anos de atuação, o PCC domina as prisões como força paralela ao Estado, controla a economia subterrânea alimentada pelo tráfico de drogas e está se expandindo para outras regiões do País.

    “Nada acontece nas prisões paulistas que não passe pela intermediação do PCC”, sustenta Camila, que entrevistou 32 detentos e ouviu dezenas de funcionários e dirigentes do sistema prisional paulista. Ela situa a trajetória da organização em três fases distintas para se firmar como contraponto à política prisional paulista e força econômica organizada a partir das atividades criminosas.

    A primeira fase, que ela chama de conquistas, vai de 1993 a 2001, quando o PCC, voltado para os problemas carcerários, transformou as prisões numa espécie de QG do crime, promovendo a onda de violência, com rebeliões e mortes; a segunda é a da publicização, entre 2001 e 2006, marcada por ações de impacto e que chamaram a atenção para a existência da organização; e, por último, a consolidação, entre 2006 e 2013, que representa o controle efetivo das prisões e sua expansão para fora dos muros do sistema prisional, com penetração na economia informal da cidade através de atividades criminosas.
    Divulgação
    Capa do livro PCC - Hegemonia nas Prisões e Monopólio da Violência

    Camila sustenta que o PCC exerce o controle sobre 90% da massa carcerária paulista, de cerca de 200 mil detentos, e é gerido por uma cúpula formada por dez presos, todos eles confinados na Penitenciária de Presidente Wenceslau. Esse grupo funciona como uma espécie de conselho deliberativo, repassando às unidades prisionais as diretrizes para a solução de conflitos comuns no sistema, executadas por integrantes que se esparramam pelas 150 unidades prisionais.

    O poder de fogo da organização está na aliança e compromisso com bandidos em liberdade que, segundo ela, controlam a distribuição de drogas (cocaína, crack e maconha) e executam as ordens emitidas de dentro das prisões. Geograficamente, a estrutura segue os moldes da administração pública, com um representante, chamado na gíria criminal de “Sintonia”, responsável por cada área da cidade. O código é definido por “DDD”, seguido de um número correspondente à região de domínio de cada grupo.

    Em fase de crescimento no País, a organização já tem ramificações em Estados como Paraná, Sergipe, Bahia, Pernambuco, Ceará, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, este último, de vital importância por se localizar na fronteira com Paraguai e Bolívia, passagem do grosso da cocaína que chega a capital paulista. Camila diz que parte dos lucros do tráfico é lavada em atividades como transporte alternativo, postos de gasolina e revenda de automóveis, uma clara proximidade com atividades formais que pode evoluir para relacionamento com grupos políticos através do financiamento de campanhas eleitorais.

    “O perfil do PCC não tem paralelo. É uma organização sui generis: não é um cartel, não se parece com a máfia e nem tem as características das gangues americanas tradicionais. Perguntei a um deles o que é o PCC e ele respondeu: ‘Não somos uma organização criminosa. Somos uma organização de criminosos. Nossa finalidade é social, mas o meio é o crime. É assim que a gente ajuda os mano’, disse ele. Isso quer dizer que o crime e a economia do crime não são suficientes para explicar o que é o PCC”, alerta a socióloga.

    Embora a constatação contrarie frontalmente o governo, que sequer reconhece a sigla da quadrilha, o PCC tem um apelo ideológico e uma aura de insurgência contra o estado. “O apelo dá ‘liga’. O trabalho social e ideológico é responsável pela união da massa carcerária contra o estado”, alerta. No plano da violência, o confronto armado se reflete no enfrentamento com a Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), o grupamento de choque da PM, numa relação de ódio recíproco cujo resultado são as baixas do ano passado em ambos os lados: 93 policiais militares e dezenas de criminosos, a maioria sem vínculo com a linha de frente de nenhum dos grupos, mas mortos nas recorrentes retaliações.

    Segundo a socióloga, a decisão do governo em colocar a Rota para com bater o PCC foi desastrosa. Os episódios do ano passado mostraram, segundo ela, que a organização não mistura sua atuação dentro das cadeias com ações de rua.

    Dentro das prisões, por exemplo, há cinco anos reina uma paz negociada, mantida pelo poder de força da organização e sob o olhar cômodo do aparato estatal. Uma das últimas rebeliões que se tem notícia ocorreu em Iaras, em 2008. E assim mesmo foi autorizada porque o comando do PCC, diante a reivindicação pelo motim, “reconheceu” que a direção da cadeia estava agindo com arbitrariedade contra alguns presos.

    “A guerra do PCC contra a PM em 2012 foi fora do sistema prisional. Os presídios vivem atualmente uma fase de acomodação, sem a violência de outros períodos. É um equilíbrio precário, mas significa que o PCC tem o controle e o exerce plenamente na mediação dos conflitos internos. É como se o estado a ele tivesse delegado essa função”, afirma Camila.



      POLÍCIA FEDERAL ATACA FINANÇAS DO PCC


      Por Vasconcelo Quadros - iG São Paulo | 10/07/2013 06:01

      Apreensões de toneladas de cocaína criaram prejuízos de 50 milhões de reais para a facção criminosa em seis meses



      A Polícia Federal descobriu que o Primeiro Comando da Capital (PCC), a organização que controla os presídios, vem erguendo um verdadeiro império financeiro através do tráfico de cocaína em São Paulo. O maior sintoma desse poderio pode ser medido pela estatística: em seis meses de investigação, entre janeiro e junho deste ano, foram apreendidas sete toneladas e meia de cocaína no estado cujo valor de atacado no mercado das drogas _ onde o preço médio é de R$ 10 mil o quilo _ chega a R$ 75 milhões.

      Prejuízo: Polícias batem dois recordes de apreensões de cocaína do PCCAE
      Incrições que ligam os criminosos ao PCC foram pichadas em um dos cômodos da casa incendiada

      Como parte da droga apreendida é a pasta base da cocaína, comercializada a um valor menor que o do cloridrato _ quando ela está pronta para o consumo _, o rombo nas finanças da organização só na perda do “produto” que alimenta a organização é estimado em cerca de R$ 50 milhões.

      Isso significa dizer que as quadrilhas envolvidas com a compra e distribuição no atacado movimentam finanças equivalentes ao capital de giro de empresas de médio porte. Em cada operação, além das prisões, a polícia tem apreendido e confiscado todos os bens em poder dos criminosos, o que aumenta os prejuízos.

      “O que move a quadrilha são negócios”, afirma o superintendente da Polícia Federal em São Paulo, Roberto Troncon Filho.

      Desde que o Ministério da Justiça e o governo paulista fecharam um acordo de cooperação, iniciado em novembro do ano passado, os órgãos policiais centraram foco para combater o PCC naquilo que é vital para sua existência: as finanças, minadas através das apreensões de drogas.

      Também estão quebrando o fluxo financeiro alimentado pela lavagem de dinheiro e as ações violentas fora das prisões que, só no ano passado, como consequência da guerra entre PCC e Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) resultaram na morte de dezenas de criminosos e mais de noventa policiais militares.

      Até o final do ano passado, mesmo diante do evidente avanço da organização no controle dos presídios, o governador Geraldo Alckmin e os órgãos de segurança paulistas (Secretaria de Segurança e Secretaria de Administração Penitenciária) procuraram negar a existência do PCC.

      Em 20 anos, no entanto, a quadrilha se expandiu de tal forma que atualmente não só detém a maior fatia do mercado do tráfico de drogas, como também estendeu seus tentáculos lavando dinheiro no crime em atividades legais (como o transporte) e se infiltrando discretamente nas estruturas políticas de municípios da Grande São Paulo.HÉLIO TORCHI/AE/AE
      Armas apreendidas nem blitz em SP

      Representante da Polícia Federal na força tarefa organizada com a criação da Agência de Atuação Integrada _ grupo de inteligência onde têm assento também as polícias militar, civil e rodoviária federal, as secretarias de Segurança e de Administração Penitenciária, Receita, Banco Central e outros órgãos de controle _, o delegado Roberto Troncon alerta que o PCC não deve ser mitificado e nem ignorado. A quadrilha tem poder financeiro e de fogo e se infiltrou na política penitenciária.

      “A pregação de que tudo é em prol da causa carcerária é papo furado”, afirma o superintendente da PF. “Eles têm capilaridade dentro dos presídios, mas seus líderes estão presos em estabelecimentos de segurança máxima. Mesmo assim, por uma questão de legalidade, não é possível mantê-los em completa incomunicabilidade. A quadrilha alimenta-se de criminosos iniciantes, cooptáveis, mas sua influência é exercida mais pela mística do que pela realidade. No topo, os líderes são capitalistas e se utilizam do discurso contra o sistema carcerário para tocar seus negócios criminosos”, afirma o superintendente da PF.

      A organização, segundo ele, tem o poder concentrado em dez líderes, conhecidos como “torres” _ todos eles cumprindo as penas mais longas do país em presídios paulistas _, presta uma espécie de serviço social aos detentos, mas cobra um alto preço a ser pago em forma de ações quando estes retornam às ruas. Para ele, é falsa a pregação ideológica por trás das ações assistencialistas nos presídios.

      O caso mais exemplar da contrapartida exigida dos investimentos em operações de tráfico foi a matança de policiais, no ano passado, ordenada pela cúpula como retaliação as ações da Rota, mas executada pelo “baixo clero”, os criminosos que estão na base da organização, conhecidos na gíria como “piolhos”, envolvidos no varejo do tráfico.

      O homem forte ainda é Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, preso atualmente na Penitenciária de Presidente Venceslau, o homem que dá a última palavra nas decisões mais importante. O PCC controla cerca de 90% da população carcerária paulista, estimada em 200 mil detentos, mas seus líderes gerenciam esquemas distintos, cada um com sua “filial”, com investimentos e cobrança de resultados.

      Nessas relações financeiras que permeiam o crime organizado a garantia é a palavra que, uma vez rompida, paga-se com a vida. É isso que explica, segundo a polícia, a eventual alternância entre o tráfico e os crimes contra o patrimônio: sempre que a polícia impõe algum prejuízo de monta ao grupo em grandes apreensões, descapitalizado, o perdedor parte para um grande assalto a banco ou carro forte para devolver o dinheiro emprestado. “Não tem título protestado”, diz o delegado.

      Firmado no dia 12 de novembro do ano passado, depois da demissão do ex-secretário de Segurança Pública, Antônio Ferreira Pinto durante choque com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, o acordo que gerou a agência de inteligência integrada mudou a política de repressão ao PCC. Os confrontos ostensivos passaram a ser precedidos de ações de inteligência voltadas para a economia da quadrilha.

      No combate ao tráfico os resultados podem ser percebidos na apreensão recorde no primeiro semestre de 2013, sempre com grandes volumes apreendidos de cocaína: 1.079 quilos em janeiro, 975 em fevereiro, 1.146 em março, 810 em abril, 1.886 em maio e algo em torno de 1.700 em junho. O que dá ares surreais é que as operações são ordenadas ou geridas de dentro das cadeias.

      Como o PCC tem capilaridade nacional e as operações de tráfico têm sempre estrutura em outros estados e nos países produtores de cocaína (a Bolívia é o maior exportador da droga que chega ao Brasil), as investigações desencadeadas em São Paulo também têm reflexos no montante de cerca de 17 toneladas apreendidas no país, em cuja estatística estão incluídas as sete toneladas e meia confiscadas em São Paulo.

      A integração entre os órgãos de segurança, possível depois que a presidente Dilma Rousseff e o governador Geraldo Alckmin, finalmente, se entenderam numa ação comum para atacar o crime organizado, é a novidade mais saudável na política de segurança do país. Com ela as polícias aperfeiçoaram a repressão. “Estamos descapitalizando e desmantelando o crime organizado”, afirma o delegado Troncon.

      quinta-feira, 30 de maio de 2013

      PRINCIPAIS FACÇÕES CRIMINOSAS DO BRASIL

      CONTRUN - April 14, 2008


      No Brasil, existem várias organizações criminosas a saber: PCC – Primeiro Comando da Capital, aliada ao CV – Comando Vermelho do Rio de Janeiro, aliada também a várias organizações criminosas de outros estados, como por exemplo o PCP – Primeiro Comando do Paraná, entre outros. Há também o Terceiro Comando – do Rio de Janeiro, que é oposição ao CV, consequentemente ao PCC e em São Paulo há também o Terceiro Comando da Capital – TCC, oposição ao PCC e consequentemente ao CV. São partidos do crime que de maneira rigorosa, monitoram o comportamento do seus membros que quando quebram a regra que reza os seus respectivos estatutos, são primeiramente suspensos e em muitos casos excluídos da irmandade. Os excluídos não desfrutam de nenhum privilégio como os membros em atividade normal, até que, no momento oportuno, pagam com a vida pelo deslize cometido. As regras de comportamento dos membros do Primeiro Comando da Capital, são rígidas e a perda do Estatuto é motivo de desonra para o ex-integrante, o excluído. As facções têm como finalidade a busca por lucro através de atividades como tráfico de drogas (inclusive internacional), roubo de cargas, roubo a bancos, e mantêm-se solidificada pois arrecadam mensalmente uma importância em dinheiro dos membros que se encontram privados de sua liberdade, nas unidades prisionais, cerca de R$ 60,00, e dos que se encontram em liberdade, cujo valor da contribuição é de R$ 500,00. Esse dinheiro é investido em drogas e armamento de guerra, bem como repassado para compra de medicamentos, alimentação, passagem para obtenção de visitas para os "irmãos" que se encontram em presídios afastado da Capital, bem como para os que estão em RDE ou castigo. Os integrantes alegam que buscam a paz, a justiça, a liberdade, a igualdade.


      Comando Vermelho
      Comando Vermelho é uma organização surgida, nos anos 80(1987), dentro do sistema prisional brasileiro – mais especificamente o presídio da Ilha Grande -, a partir da convivência entre presos políticos e crimonosos comuns, durante a Ditadura Civil-Militar Brasileira (1964-1985), a fim de melhorar a situação dos detentos – entre outras coisas, evitava violência sexual e financiava fugas. Houve uma organização que precedeu o CV, chamada Falange Vermelha.

      Com o passar do tempo e a corrupção dos ideias iniciais (Paz, Justiça e Liberdade), o CV tornou-se uma organização criminosa que extrapolou os limites do presídio da Ilha Grande.

      O CV dominou sozinho o comércio de substâncias ilícitas na região metropolitana do Rio de Janeiro até meados dos anos 90. A essa época, a organização fundada, entre outros, por Rogério Lemgrüber, dedicava-se exclusivamente a atividades criminosas.

      Também na mesma época a partir de uma dissidência, surgiu o Terceiro Comando. Deu-se início um período de perdas para o CV, principalmente devido às guerras pelo controle de substâncias ilícitas.

      Assim como atualmente, quando os principais líderes do CV ou foram mortos ou estão presos, a renovação das gerações de líderes fez com que a violência recrudecesse ano a ano.

      Principais líderes: Fernandinho Beira-Mar, Isaías do Borel, Marcinho VP, My Thor, Elias Maluco

      Principais redutos: Complexo do Alemão, Mangueira, Jacarezinho


      O modus operandi do CV

      A estrutura profissional do Comando Vermelho é o seu principal esteio de poder. Estima-se que controla cerca de 40% do comércio de drogas no Rio de Janeiro, e que em suas fileiras estejam presentes cerca de 5.000 marginais fortemente armados (chegando a usar até fuzis automáticos AR-15 – também usado pela polícia, fabricado pela norte-americana Colt – e o AK-47, produzido por licença da marca russa Kalashnikov). Tamanha artilharia – ambos os fuzis citados acima têm poder de fogo próximo de 600 tiros/minuto – faz-se necessária aos traficantes para que possam manter seu poder.

      Crianças e jovens favelados, sem perspectivas de vida na cidade grande que tanto os discrimina e iludidas com promessas de renda fácil, muitas vezes acabam por engrossar as milícias do tráfico – bem como as alarmantes estatísticas de mortes por armas de fogo no Brasil (cerca de 80 óbitos são registrados todos os dias). Por vezes, os traficantes do CV exercem o que alguns chamam, ironicamente, de "política da boa vizinhança": entram sem aviso prévio em casas e barracos, com tal de "conhecer" melhor os habitantes da favela.

      Em muitos casos, os traficantes são vistos pela população das favelas como a autoridade a ser seguida, visto que a presença do Estado naquele ambiente é mínima. A corrupção na Polícia carioca, por vezes escandalosa, também é apontada por especialistas como uma das razões do vertiginoso crescimento do tráfico, em especial a partir dos anos 80, quando cartéis colombianos passaram a usar o Brasil como rota alternativa de seus negócios.


      Primeiro Comando da Capital


      O Primeiro Comando da Capital, também conhecido como PCC, é uma facção criminosa surgida no início dos anos noventa no Centro de Reabilitação Penitenciária de Taubaté, para onde eram transferidos prisioneiros de alta periculosidade com histórico de distúrbios em outras penitenciárias. A organização cresceu e começou a mostrar força em diversas ações, como resgate de presos ou ataques a distritos policiais em todo Estado de São Paulo.


      ESTATUTO DO PCC


      1. Lealdade, respeito, e solidariedade acima de tudo ao Partido

      2. A Luta pela liberdade, justiça e paz

      3. A união da Luta contra as injustiças e a opressão dentro das prisões

      4. A contribuição daqueles que estão em Liberdade com os irmãos dentro da prisão através de advogados, dinheiro, ajuda aos familiares e ação de resgate

      5. O respeito e a solidariedade a todos os membros do Partido, para que não haja conflitos internos, porque aquele que causar conflito interno dentro do Partido, tentando dividir a irmandade será excluído e repudiado do Partido.

      6. Jamais usar o Partido para resolver conflitos pessoais, contra pessoas de fora. Porque o ideal do Partido está acima de conflitos pessoais. Mas o Partido estará sempre Leal e solidário à todos os seus integrantes para que não venham a sofrerem nenhuma desigualdade ou injustiça em conflitos externos.

      7. Aquele que estiver em Liberdade "bem estruturado" mas esquecer de contribuir com os irmãos que estão na cadeia, serão condenados à morte sem perdão

      8. Os integrantes do Partido tem que dar bom exemplo à serem seguidos e por isso o Partido não admite que haja assalto, estupro e extorsão dentro do Sistema.

      9. O partido não admite mentiras, traição, inveja, cobiça, calúnia, egoísmo, interesse pessoal, mas sim: a verdade, a fidelidade, a hombridade, solidariedade e o interesse como ao Bem de todos, porque somos um por todos e todos por um.

      10, Todo integrante tem que respeitar a ordem e a disciplina do Partido. Cada um vai receber de acôrdo com aquilo que fez por merecer. A opinião de Todos será ouvida e respeitada, mas a decisão final será dos fundadores do Partido.

      11. O Primeiro Comando da Capital PCC fundado no ano de 1993, numa luta descomunal e incansável contra a opressão e as injustiças do Campo de concentração "anexo" à Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, tem como tema absoluto a "Liberdade, a Justiça e Paz".

      12. O partido não admite rivalidades internas, disputa do poder na Liderança do Comando, pois cada integrante do Comando sabe a função que lhe compete de acordo com sua capacidade para exercê-la.

      13. Temos que permanecer unidos e organizados para evitarmos que ocorra novamente um massacre semelhante ou pior ao ocorrido na Casa de Detenção em 02 de outubro de 1992, onde 11 presos foram covardemente assassinados, massacre este que jamais será esquecido na consciência da sociedade brasileira. Porque nós do Comando vamos mudar a prática carcerária, desumana, cheia de injustiças, opressão, torturas, massacres nas prisões.

      14. A prioridade do Comando no montante é pressionar o Governador do Estado à desativar aquele Campo de Concentração " anexo" à Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, de onde surgiu a semente e as raízes do comando, no meio de tantas lutas inglórias e a tantos sofrimentos atrozes.

      16. Partindo do Comando Central da Capital do KG do Estado, as diretrizes de ações organizadas simultâneas em todos os estabelecimentos penais do Estado, numa guerra sem trégua, sem fronteira, até a vitória final.

      16. O importante de tudo é que ninguém nos deterá nesta luta porque a semente do Comando se espalhou por todos os Sistemas Penitenciários do estado e conseguimos nos estruturar também do lado de fora, com muitos sacrifícios e muitas perdas irreparáveis, mas nos consolidamos à nível estadual e à médio e longo prazo nos consolidaremos à nível nacional. Em coligação com o Comando Vermelho – CV e PCC iremos revolucionar o país dentro das prisões e nosso braço armado será o Terror "dos Poderosos" opressores e tiranos que usam o Anexo de Taubaté e o Bangú I do Rio de Janeiro como instrumento de vingança da sociedade na fabricação de monstros.

      Conhecemos nossa força e a força de nossos inimigos Poderosos, mas estamos preparados, unidos e um povo unido jamais será vencido.

      LIBERDADE! JUSTIÇA! E PAZ!

      O Quartel General do PCC, Primeiro Comando da Capital, em coligação com Comando Vermelho CV

      UNIDOS VENCEREMOS


      Terceiro Comando

      O Terceiro Comando é uma extinta facção criminosa, surgida de uma dissidência do CV, no começo da década de 90. Passou a dominar pontos de venda a partir das zonas Oeste e Norte, áreas mais periféricas da cidade do Rio de Janeiro. A aliança forjada com a ADA (Amigos dos Amigos), em 2002, fortaleceu e ampliou a organização. Entretanto, devido a uma nova dissidência, surgiu o TCP (Terceiro Comando Puro) e o que havia sido conhecido como TC não existia mais.O TCP junto com o ADA são gangues rivais do Comando Vermelho e do PCC, que disputam a liderança do trafico.

      Terceiro Comando Puro


      Dissidência surgida, no ano de 2003, a partir da união entre TC (Terceiro Comando) e a ADA (Amigos dos Amigos). Domina pontos de venda nas zonas Oeste e Norte e tem pouca expressão no centro e na Zona Sul da cidade.

      Principais líderes: Robinho Pinga, Facão

      Principais redutos: Acari, Dendê,Casa branca,Parada de lucas


      Amigos dos Amigos

      Amigos dos Amigos é um grupo surgido de uma divisão do CV (Comando Vermelho) e do TC (Terceiro Comando). Assim como o TC em seu início, passou a dominar os pontos de venda de drogas a partir das zonas Oeste e Norte. Ganhou cobertura midiática a partir da união com o TC (2002). Atualmente, atua sem se aliar a nenhum outro grupo.

      Principais líderes: Celsinho da Vintém, Sassá, Aritana.

      Principais redutos: Rocinha, Vila dos Pinheiros, Morro dos Macacos, São Carlos


      Extraído de Wikipédia e reportagens de jornais.
      FONTE: http://contrun.noblogs.org/post/2008/04/14/principais-fac-es-criminosas-do-brasil/

      EMPRESA DO TRÁFICO

      DIÁRIO GAÚCHO 30/05/2013 | 08h19


      Com matadores de aluguel, facção dos Bala na Cara vira "firma do tráfico" na Região Metropolitana. Em posição de comando nos principais presídios do Estado, líderes colocam em prática o seu método empresarial de mandar no tráfico

      Eduardo Torres


      Diante dos policiais, o guri de 14 anos, pequeno e magrinho, falava de assassinatos com naturalidade. Contabiliza na sua lista ao menos três vítimas desde que entrou para a criminalidade, aos oito anos. Mas, para a polícia, foram mais.

      Desde o começo do mês, estava com um grupo de bandidos em um apartamento no Bairro Mathias Velho, em Canoas, com a missão exclusiva de matar. Nem conhece direito aquela região. Pudera, veio da Vila Safira, no Bairro Mario Quintana, Zona Norte da Capital, a mando dos Bala na Cara.

      - Onde me mandam, eu vou lá e mato - resumiu.

      Facção quer crescer

      Antes de ser levado para a Fase, o matador foi enfático: estava ali sob ordens do tráfico, e depois voltaria à sua base, esperando outra missão.

      Personagens como ele seriam a ponta do projeto de crescimento dos Bala na Cara, alçados, desde 2011, à importância de facção nos presídios gaúchos. A quadrilha está presente em praticamente todas as guerras do tráfico na Região Metropolitana.

      "São os agiotas do crime"

      A investigação da Delegacia de Homicídios de Canoas é encarada como o fio condutor para entender como agem os Bala na Cara.

      - Eles se tornaram agiotas do crime. O envio de matadores para "limpar a área" é parte desse pacote de serviços. Sabemos que a ordem parte da cadeia e vamos atrás dos líderes - garante o delegado Marco Guns.

      Socorro a patrões em declínio

      Com seus principais articuladores em posições de liderança nas galerias da Pasc, Pej e Presídio Central, os Bala na Cara teriam se tornado o socorro de patrões da droga decadentes. São traficantes endividados, tentando reerguer seus antigos domínios.

      - Os Bala na Cara compram as dívidas desse criminoso, mas ele fica condicionado a comprar drogas exclusivo deles e dar parte dos lucros para a facção. Em troca, recebe armas e, quando precisa se livrar de devedores, desafetos ou há guerras pelas bocas, os matadores chegam na vila a mando dos Bala - diz um policial de Canoas.

      Prisão em Canoas revela o método dos Bala na Cara

      A polícia de Canoas teve a primeira pista do plano de retomada do tráfico no Bairro Mathias Velho, em Canoas, com o suporte dos Bala, em dezembro do ano passado. Naquela época, a Brigada Militar prendeu, por porte ilegal de armas, dois homens de Porto Alegre que circulavam de carro pelo bairro. O detalhe estava no histórico dos dois: um, apontado como gerente do tráfico no Bairro Bom Jesus, o outro, como matador no Bairro Mario Quintana.

      Este ano, no começo de maio, a investigação deslanchou. Os matadores dos Bala erraram o alvo. A ordem era executar um pequeno traficante que teria traído o "contratante" dos Bala, comprando drogas de outro fornecedor. Porém, mataram um comparsa dele. Dênis Antônio da Silva Prado, 18 anos, foi morto com um tiro na cabeça no dia 6 de maio.

      - Essa "falha" forçou eles a mudarem o método. Antes, sabíamos que o pessoal vinha até a Mathias, cumpria a ordem e voltava. Agora, estavam até procurando casas para alugar. Provavelmente se estabeleceriam aqui, depois de cumprirem a ordem de execução - diz um policial.

      Matadores ficaram na cidade

      Sábado passado, o grupo, que permaneceu na cidade, tentou matar o traficante. Na segunda, a Operação Contundência apreendeu quatro adolescentes entre 14 e 17 anos, um jovem de 18 anos e um casal de 30 anos em um apartamento na Rua Santo Ângelo. Com eles, foram apreendidos dois revólveres calibre 38, um calibre 32, além de uma pistola .40.

      Os três adolescentes - um deles, o guri de 14 anos - e o jovem vinham do Bairro Mario Quintana, na Capital.

      "Os invisíveis"

      O trunfo das parcerias da facção está na "invisibilidade". As informações sobre homicídios até chegam à polícia, todos sabem quem supostamente mandou cometer os crimes. Sabem também que os Bala na Cara estão no meio. Mas testemunhas são incapazes de reconhecer quem comete os crimes.

      - Nossa grande dificuldade é sempre identificar quem atirou, porque são pessoas desconhecidas na vila - aponta Marco Guns.

      No crime, desde os oito anos

      O guri de 14 anos apreendido em Canoas, é um dos dez filhos de uma família pobre da Vila Safira, no Bairro Mario Quintana, Zona Norte da Capital. Chegou a ajudar o pai no trabalho de flanelinha, mas o viu morrer antes de completar 30 anos, corroído por crack e cachaça. Aos oito anos, como ele mesmo descreve, "colou com uma gurizada do crime". Aos 14, já adquiriu prestígio de matador entre os Bala na Cara. É a ele que os gerentes recorrem no momento de cumprir as ordens do comando.

      - Eu gosto é de ver o sangue ainda quentinho, escorrendo dos caras, sabe. Tenho sangue nos olhos - gabava-se o guri no depoimento prestado à Delegacia de Homicídios, de Canoas, na segunda-feira.

      Ele saiu do verdadeiro criatório de soldados da facção, com o perfil procurado e protegido pelos líderes.

      - Eu nem conheço trabalhador, também não mexo com família. Só mato vagabundo. Eles me dão o que tem que dar por isso, eu mato, e pronto. Não sou mais soldadinho - disse, garantindo que já matou outros antes do crime do dia 6 de maio, no Mathias Velho. Em todas as vezes anteriores, revelou, "alguém abraçou a bronca".

      Adolescentes matam para ganhar prestígio

      A suspeita da polícia é de que os soldados desse exército do tráfico saem do Bom Jesus, Mario Quintana, Vila Esqueleto, Vila Mapa e Vila dos Sargentos - locais de Porto Alegre onde os Bala já conseguiram construir bases mais sólidas. São os principais comandados para missões nas áreas aliadas. Matam, segundo os investigadores de Canoas, pelo prestígio dentro da organização.

      - Imagine o caso desse menino, sem nenhuma perspectiva, que ganhou uma pistola. O pagamento para ele é esse status entre os criminosos - resume o delegado Marco Antônio Guns.


      sábado, 20 de abril de 2013

      PRIMEIRO GRUPO CATARINENSE - PGC



      ILUSTRAÇÕES TIRADAS DA WEB PELO AUTOR DO BLOG



      POR DIOGO VARGAS E FELIPE PEREIRA
      ZERO HORA 13 de abril de 2013 | N° 17401

      A fundação do PGC

      Os fundadores do PGC se organizaram na cadeia. Os primeiros ensaios do que viria a se transformar numa legião de detentos surgiram em 2001, na chamada Ala Máxima da Penitenciária de Florianópolis. Em março de 2003, quando o Estado começava a planejar o envio de presos para a recém-construída Penitenciária de São Pedro de Alcântara, na Grande Florianópolis, presos fundaram a facção, chamada inicialmente de “G” (O Grupo).

      Ali se juntaram detentos de alta periculosidade, que viriam a se comunicar e tramar crimes da prisão para as ruas. A liderança foi fundamentada em uma espécie de “primeiro ministério”, sem líder máximo e com 10 presos encabeçando as decisões, aliciando, ameaçando e até mesmo determinando o extermínio de testemunhas. Na prática, as decisões mais importantes, como matar aliados e desafetos, passam pelo colegiado dos criminosos. Segundo a polícia, a facção cresceu de forma vertiginosa a partir de maio de 2003, no mesmo formato do Comando Vermelho, no Rio, e do Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo.


      Aos moldes da máfia

      O Ministério Público de SC compara o PGC com organização típica da máfia: compartilham atividades, as delegam aos seus integrantes, se aliam em ações criminosas e de terrorismo. Os promotores, que avalizaram a investigação da Polícia Civil, citam no inquérito o mercado ilegal do crime organizado característico e as divisões existentes neste submundo.

      Em uma esfera mais baixa estão os que se dedicam ao tráfico de drogas, sequestros, roubos, aluguel de armas, ataques a bancos e cargas. Esses criminosos costumam se envolver nas comunidades. Praticam ações sociais locais para aumentar a sua proteção local com base na lei do silêncio. Num nível um pouco mais acima estão os que conseguem estabelecer conexões para fora da periferia. É esse grupo que faz a ponte entre a rua e a cadeia e cumpre as ordens de líderes presos. No nível mais elevado estão criminosos que conseguem conexões com organizações de maior abrangência, promovendo corrupção e facilidades mesmo da cadeia.


      QG dos criminosos
      A Penitenciária de São Pedro de Alcântara ficou conhecida por ser a origem das ordens para os atentados e por abrigar o quartel-general do PGC. Consequência de um histórico de problemas desde a inauguração da cadeia. Em maio de 2003, a unidade recebia os primeiros presos sem sequer ter capacidade de fornecer água.

      A escolha do primeiro diretor mostra o descaso com que foi administrada a unidade. Advogado e presidente de um clube de futebol amador, Carlos Martins era tão alheio ao cotidiano da criminalidade que no Natal daquele ano se vestiu de Papai Noel e distribuiu balas para os detentos. Virou motivo de chacota entre os criminosos de reprovação dos agentes penitenciários. A partir de 2006, começaram a surgir denúncias de agressões a presos, o que serviu para alimentar o discurso, e as ações, do PGC contra as autoridades.


      Dízimo e agiotagem

      A atuação e subsistência do Primeiro Grupo Catarinense estão no tráfico de drogas e de armas, em assaltos, furtos, resgate de presos, prostituição, execução de policiais, de agentes e de quem se opõe aos interesses do grupo. A mais nova prática ilegal pode ser definida como agiotagem, ou seja, juros sobre a mensalidade travestida de dízimo – a contribuição financeira de R$ 100 mensais por integrante. Os “irmãos” que estão na lista de devedores são obrigados a pagar R$ 2,50 ao dia – 75% de juros ao mês.

      Do investimento feito pelo grupo é exigido retorno de 10% a 30%. Assim, se alguém assaltar com arma fornecida pelo PGC, deve repassar parte do valor ao grupo. O dinheiro vai para o caixa geral da facção e então é revertido em drogas, armas, pagamento de advogados, compra de alimentos, ajuda a familiares de presidiários e ao financiamento de atentados. Quem não honrá-lo, pode ser condenado à morte.


      Parentes aliciados

      Familiares de detentos também são ameaçados para se submeter à vontade dos líderes da facção – seja com contribuição financeira mensal, seja praticando crimes. Geralmente, o aliciamento é feito pelo preso, que busca em um parente, em especial adolescentes, que ele se alie e passe a praticar delitos para a organização.

      Para entrar é preciso ter aprovação dos líderes. Nem sempre há unanimidade. A entrada de Fabrício da Rosa, por exemplo, foi aprovada por 98% dos detentos – outros 2% eram inimigos que o rejeitaram pela rivalidade. Fabrício é apontado como um dos gerentes do tráfico no Morro do Horácio, em Florianópolis. A ele, coube a missão de participar do assassinato da agente penitenciária Deise Alves, em 26 de outubro de 2012, conforme consta em denúncia do MP. A polícia tem listas com nomes de pretendentes ao ingresso, que ficam em observação pelo período de um a seis meses antes do batismo pelo PGC.


      Ordens por SMS

      O bombardeio de SMS rapidamente é difundido entre presos e comparsas nas ruas. São 22h8min de 30 de janeiro deste ano, uma quarta-feira. No teor da mensagem, o alvo investigado avisa que um líder do PGC “deu um salve geral para pegar o governo do Estado”. Salve geral, na gíria do crime, é a ordem para deflagrar os ataques.

      Em seguida, o investigado repassa a mesma mensagem para outros nove celulares. O primeiro atentado leva menos de 30 minutos para ocorrer. Às 22h30min, em Balneário Camboriú, o motorista é obrigado a descer do ônibus. Dois homens, então, ateiam fogo ao coletivo. Começava ali a segunda onda de atentados em Santa Catarina, que se estenderia por pouco mais de um mês. Coletivos, viaturas, veículos de passeios, comércios, delegacias e postos policiais entraram na mira do esquema orquestrado pela facção PGC.



      Facção planejava explodir ponte


      Uma ameaça sem precedentes foi descoberta pela Polícia Civil em meio à onda de ataques, em fevereiro, ordenados de dentro da cadeia pela facção Primeiro Grupo Catarinense (PGC) – episódio que desafiou as autoridades de Santa Catarina e forçou a transferência de 40 presos para cadeias federais. A organização criminosa pretendia assaltar uma pedreira, roubar dinamites e explodir uma ponte ou uma torre.

      O plano do atentado – revelado por um preso que foi ouvido em 7 de fevereiro por investigadores – integra o inquérito que soma mais de 4 mil páginas concluído ontem pela Polícia Civil. No total, 97 pessoas foram indiciadas pela série de 114 ataques de fevereiro. A polícia pediu que 21 pessoas que cumpriam prisão temporária sejam liberadas. A palavra final ficará com a 3ª Vara Criminal de Blumenau.

      Aquele que seria um atentado emblemático não chegou a acontecer. Trancafiado há mais de 14 anos na penitenciária de São Pedro de Alcântara, o detento depôs sob a garantia de anonimato. Não se sabe ao certo qual seria o alvo da explosão. Policiais não descartam que fosse o principal cartão-postal de SC: a ponte Hercílio Luz, em Florianópolis.

      Investigadores afirmam que o fácil acesso de assaltantes a explosivos e a frágil vigilância na Hercílio Luz são razões suficientes para crer que um episódio do tipo não seria improvável. A facção também tramou colocar explosivos em um shopping e roubar armas de um quartel do Exército – nenhum desses atentados ocorreu.





      sábado, 12 de janeiro de 2013

      OS NOVOS DONOS DO TRÁFICO

      REVISTA ÉPOCA, 22/11/2012 15h53

      Quem são os homens que, fora ou dentro da cadeia, controlam o crescente comércio de drogas no Brasil – e imprimem gestão empresarial a seus negócios ilícitos

      HUDSON CORRÊA, DA BOLÍVIA E DO PARAGUAI, E LEONARDO SOUZA



      O jipe Cherokee preto, blindado, com placa número 0001, começou a ser seguido pela Polícia Federal (PF) nas ruas de São Paulo em meados de 2001. Seu condutor, o paranaense Luiz Carlos da Rocha, um homem de meia-idade, pele clara e cabelos grisalhos, era monitorado pela PF por suspeita de envolvimento com o narcotráfico. Passados dez anos, a polícia não tem mais a menor dúvida sobre as atividades de Cabeça Branca, apelido pelo qual Luiz Carlos é conhecido. Como sua placa prenunciava uma década antes, ele é considerado hoje, aos 52 anos, o número um de uma lista dos maiores barões da droga no Brasil.

      Cabeça Branca e outros grandes traficantes investigados pela PF – Jarvis Chimenez Pavão, Lourival Máximo da Fonseca, Maximiliano Dourado Munhoz Filho, José Paulo Vieira de Melo e Irineu Domingo Soligo – representam uma nova geração do narcotráfico. Num estilo diferente de traficantes do passado, como Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, e José Carlos dos Reis Encina, o Escadinha, conhecidos por atos de violência e afronta escancarada às autoridades públicas, os novos donos do tráfico atuam de modo mais discreto. Eles não deixam de ser violentos. Quando julgam necessário, mandam matar. Mas não integram facções criminosas nem mantêm “exércitos” armados que desafiam a polícia.

      (Foto: reprodução, Otimex/Xinhua/Cor/Clj, Governo do Estado de MT, AP, arq. Folha de Rondonia e Newscom )

      Preferem atuar como homens de negócios e comandam, foragidos ou dentro da cadeia, verdadeiras redes empresariais da droga. Eles cruzaram as fronteiras de nações vizinhas, se instalaram por lá e, com a proteção de autoridades locais corruptas e diante da leniência do Estado brasileiro, inundam as cidades do país todos os anos com toneladas de cocaína e pasta-base de coca, a matéria-prima para a produção do crack – o entorpecente que mais mata hoje no Brasil. De suas bases montadas no Paraguai, na Bolívia, na Colômbia e até mesmo na Venezuela, terceirizam boa parte dos serviços, como o refino da coca, a remessa e a distribuição da droga no Brasil.

      “O tráfico de drogas nunca vai acabar. Podem prender dez Fernandinhos (Beira-Mar). Dez não sei quem. Dez Pavão. Não adianta”, disse a ÉPOCA Jarvis Chimenez Pavão, apontado pela PF como o segundo maior traficante do país. “O Paraguai todo é território do tráfico.” Pavão recebeu a reportagem na penitenciária de Tacumbu, em Assunção, a maior do Paraguai, de onde, segundo a PF, continua a controlar o comércio de drogas para o Brasil. Durante três meses, ÉPOCA realizou um extenso levantamento sobre a vida desses grandes traficantes. Consultou processos judiciais, entrevistou policiais e advogados, visitou cidades dos dois lados da fronteira e constatou que as palavras de Pavão não são uma mera bravata.

      Alguns indicadores oficiais sugerem que as drogas estão entrando no Brasil em quantidades cada vez maiores. No relatório mundial sobre drogas divulgado em junho deste ano, a Organização das Nações Unidas (ONU) destacou a crescente apreensão de narcóticos no Brasil. O país foi o recordista de todas as Américas em volume de crack retido em único ano, com 374 quilos (em 2008). Nos Estados Unidos, foram apreendidos 163 quilos de crack. Houve também um aumento espantoso na quantidade de cocaína retirada de circulação em território brasileiro. Em 2004, foram retidas 8 toneladas. Seis anos depois, em 2010, o número saltou para 27 toneladas.

      O governo difunde a versão de que as apreensões de cocaína aumentaram por maior eficiência das forças engajadas no combate ao tráfico – além da PF, o Exército e a Força Nacional de Segurança. Nos últimos anos, a PF ampliou sua atuação nas fronteiras. Fechou acordos de cooperação com as polícias do Paraguai e da Bolívia. Em conjunto com as forças paraguaias, passou a erradicar plantações de maconha. A polícia brasileira também fornece às autoridades paraguaias e bolivianas informações sobre traficantes brasileiros de cocaína em atuação nos países vizinhos. A PF, contudo, vê seu esforço minado por quatro fatores:
      1. A remessa de drogas para o país aumentou consideravelmente nos últimos anos.
      2. As polícias dos países produtores são corruptas e dão proteção aos traficantes, mesmo aos brasileiros instalados por lá.
      3. O orçamento para o combate ao tráfico é estreito e ficou ainda menor em 2011.
      4. A pressão do corpo diplomático brasileiro sobre os países vizinhos para coibir a produção de droga em seus territórios é tímida.





      Para entender o novo modelo do narcotráfico brasileiro, é preciso voltar à manhã de 25 de abril de 2001, quando o traficante Fernandinho Beira-Mar desembarcou em Brasília, com olheiras e um ferimento provocado por um tiro no braço. Dias antes, ele fora capturado na selva colombiana durante uma operação que envolveu 3 mil soldados daquele país. Era o fim do reinado de cinco anos de Beira-Mar em território colombiano e também no Paraguai. O vácuo deixado por ele não tardaria a ser ocupado por novos megatraficantes.

      A mensagem

      Para as autoridades - O consumo de drogas cresce no país, mas os recursos para o combate ao narcotráfico diminuem

      Para a diplomacia - A política externa vai ter de lidar com um problema cuja origem está além de nossas fronteiras 


      Semanas após a prisão de Beira-Mar, a PF já estava no encalço de Cabeça Branca. Foi nessa época que os policiais passaram a fotografá-lo pelas ruas de São Paulo – à distância, evitando ser notados. Em outubro daquele ano, os policiais federais fizeram a primeira apreensão de que se tem notícia relacionada a ele. Foram retidos em Tapurah, norte de Mato Grosso, 488 quilos de cocaína trazidos da Colômbia. O entorpecente estava com a quadrilha de Cabeça Branca, mas ele não chegou a ser preso. Fugiu para o Paraguai. Começava ali seu império nas terras do país vizinho, onde comprou uma série de fazendas, de acordo com o promotor de Justiça Antônio Ganacin Filho, de São Paulo.

      O NÚMERO DOIS
      Jarvis Pavão, na penitenciária de Tacumbu, em Assunção. Ele diz que o Paraguai virou território livre para o narcotráfico (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)

      Três anos depois da apreensão em Mato Grosso, Ganacin denunciou Cabeça Branca e outras cinco pessoas pelo tráfico de 492 quilos de cocaína apreendidos em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. A cor imaculadamente branca da droga impressionou os policiais envolvidos na operação. O grau de pureza revelava que o pó fora trazido da Colômbia e não ficaria no Brasil. Seria exportado para a Europa. De acordo com a investigação, a cocaína foi transportada num bimotor Beech Aircraft, pertencente a Cabeça Branca, até uma fazenda em Mato Grosso. Da propriedade, seguiu de carreta, onde foi escondida sob toneladas de arroz, até o interior paulista. De lá, seria levada ao Rio de Janeiro, oculta entre sacas de açúcar, se não tivesse sido retida pela polícia.

      Àquela altura, a quadrilha de Cabeça Branca já operava no Rio de Janeiro. Um ano após o episódio do interior paulista, a PF apreenderia 1.691 quilos de cocaína em um mercado na Zona Norte carioca, em setembro de 2005. Foi a maior apreensão da história da cidade, conhecida por suas favelas dominadas pelo tráfico. A droga estava escondida em buchos congelados de bovinos, que seriam enviados para Portugal e Espanha. Mas a PF não pôs as mãos em Cabeça Branca. Quem foi preso foi seu irmão Carlos Roberto da Rocha, o Tob. O número um do tráfico estava a salvo no Paraguai. 



      Com dois mandados de prisão expedidos pela Justiça brasileira, Cabeça Branca também é foragido da polícia paraguaia. Cartazes de “Procura-se” foram espalhados pelas cidades do país vizinho. Segundo duas autoridades paraguaias ouvidas por ÉPOCA, a polícia só não o prende porque não quer. Elas revelaram não somente onde Cabeça Branca está, sem se preocupar em se esconder, como deram detalhes de sua rotina. Disseram que ele costuma circular entre suas fazendas em três caminhonetes pretas que sempre andam em comboio – ele usaria essa técnica para confundir adversários em caso de ataque. Cabeça Branca tem três propriedades rurais contíguas. São um pequeno território do narcotraficante em solo paraguaio, na região de Yby Yau, a 100 quilômetros da fronteira com o Brasil.
      AUTORIDADE Numa foto de 2005, o traficante boliviano Huber Rivero, então prefeito de San Matías, caminha ao lado do então governador Blairo Maggi (Foto: Governo do Estado de MT)

      De acordo com os inquéritos da PF, entre 2001 e 2005 foram apreendidas quase 3 toneladas de cocaína com integrantes da organização criminosa de Cabeça Branca. O volume valeria cerca de US$ 60 milhões. A maior parte seria enviada à Europa. De acordo com a Procuradoria da República em Mato Grosso do Sul, Estado na fronteira com o Paraguai, Cabeça Branca “financia a compra de cocaína, a importação para o Brasil e cuida do preparo com aumento de volume com o batismo(mistura com outras substâncias). Guarda em depósito, transporta e revende a droga”. Em outra frente, segundo a Procuradoria, ele compra armas e as troca por drogas, provavelmente em transações com integrantes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Fábio Ricardo Mendes Figueiredo, advogado de Cabeça Branca sediado em Ponta Porã, Mato Grosso do Sul, diz que ele nunca foi condenado pela Justiça e que tem obtido vitórias nos Tribunais Superiores contra as investigações da PF.


      A PF nunca deixou de monitorar a quadrilha de Cabeça Branca. De 2005 para cá, identificou novas rotas usadas por ele para mandar a droga para o Brasil e para a Europa. Por questões estratégicas, a polícia mantém sigilo sobre suas atividades mais recentes. ÉPOCA apurou que um dos novos caminhos empregados pelo traficante é a Venezuela. De lá, por terra, a principal porta para o Brasil é o município de Pacaraimã, em Roraima, onde se encontra a reserva indígena Raposa-Serra do Sol. Segundo o secretário de Segurança Pública de Roraima, general Eliéser Girão Monteiro Filho, índios foram arregimentados pelos traficantes. Eles cruzam a fronteira e trazem mochilas carregadas de droga.


      Como o tráfico é um negócio bastante rentável, Cabeça Branca, com o tempo, ganhou a companhia de mais traficantes brasileiros do outro lado da fronteira. “Eles instalaram bases de apoio no Paraguai e na Bolívia, assim como passaram a manter estreito relacionamento com os chefes criminosos locais”, disse a ÉPOCA o adido da Polícia Federal em Assunção, Antonio Celso dos Santos. Até meados da década passada, o tráfico internacional de drogas promovido por brasileiros era marcado por uma guerra sangrenta entre grupos rivais em disputas por territórios e poder na fronteira. Beira-Mar foi acusado e condenado por assassinar o rival paraguaio João Morel em 2001, além de encomendar as mortes de dois filhos de seu desafeto. Hoje, no sistema de perfil mais empresarial dos novos traficantes, os conflitos armados foram aparentemente contornados com a divisão de territórios entre as organizações criminosas.

      Os comerciantes de drogas não tiveram muito trabalho para se acomodar no Paraguai. Encontraram um território aberto. Entrar e sair do país é tão fácil quanto trocar de calçada. Em Ponta Porã, basta atravessar uma rua para entrar em Pedro Juan Caballero, cidade paraguaia com 100 mil habitantes. Ao longo de 1 quilômetro na faixa de fronteira, é possível fazer um zigue-zague de carro ou a pé entre as cidades sem encontrar um policial sequer. O único incômodo são vendedores ambulantes com bolsas a tiracolo oferecendo maconha, munição para armas e uma versão paraguaia do Viagra.


      O tráfico de drogas movimenta US$ 100 milhões por mês em Pedro Juan Caballero, afirmam autoridades paraguaias ouvidas por ÉPOCA. Ao menos dez aviões chegam à cidade por semana. Cada um deles carregado com mais de 300 quilos de cocaína. No dia 5 de agosto, a reportagem de ÉPOCA estava em Pedro Juan Caballero. No início daquela noite, o presidente do Paraguai, Fernando Lugo, chegou à cidade. De casaco preto e calça social, Lugo estava rodeado de dezenas de seguranças, ao participar de uma solenidade de entrega de computadores para estudantes. Ao ser abordado, ele se esquivou de responder a uma pergunta sobre a atuação impune de narcotraficantes em seu país. “Outro dia”, limitou-se a dizer. Após a solenidade na escola, Lugo se dirigiu a uma praça aberta. Assistiu por mais de duas horas a uma apresentação musical que fazia parte das comemorações do bicentenário da independência paraguaia. Outra personalidade ilustre presente às comemorações na cidade era o traficante Carlos Ruben Sanchez Garcete, o Chicharo, que opera enviando maconha para o Brasil e a Argentina, segundo a PF. Ele circulava em um BMW livremente pelas ruas de Pedro Juan.



      Chicharo é ligado ao gaúcho José Paulo Vieira de Melo, de 42 anos, conhecido como Paulo Seco, preso no Uruguai há um ano e três meses. Ele é acusado de traficar para o Brasil cerca de 1 tonelada de cocaína, apreendida em operações policiais. Paulo Seco é apontado pela PF como o sucessor dos negócios de Fernandinho Beira-Mar no Paraguai. “Com a prisão do conhecido traficante Ney Machado (em 2001) pelo Exército colombiano, Paulo Seco assumiu o comando da organização criminosa em Capitan Bado, Paraguai”, informa um documento da Procuradoria da República no Rio Grande do Sul. Machado, conhecido como Pitoco, era o braço direito de Beira-Mar. Segundo a PF, Paulo Seco montou uma “base de operação” em Ciudad del Este, Paraguai, na fronteira com o Paraná. Aprimorou então o esquema de Beira-Mar para traficar drogas em pequenas aeronaves. Elas viajam do Paraguai até o Rio Grande do Sul e arremessam pacotes de cocaína em fazendas próximas à fronteira com a Argentina.

      Esse esquema empresarial montado pelos novos barões da droga permite que eles comandem o tráfico mesmo presos. É o caso de Jarvis Chimenez Pavão, de 43 anos. Depois de Cabeça Branca, ele é considerado o traficante mais poderoso. Preso em Assunção desde 2009, Pavão continuou a comandar o envio de aviões carregados com cocaína para o Brasil, segundo relatório da Operação Matriz, da Polícia Federal, a que ÉPOCA teve acesso. Ele usava um celular para se comunicar com traficantes no Brasil, diz a PF, que captou as conversas por meio de escutas autorizadas pela Justiça.

      Da cadeia em Assunção, o número dois do tráfico mandou matar, por R$ 50 mil, um de seus gerentes que desviava dinheiro da quadrilha, de acordo com a investigação. “Esse cara é um sem-vergonha. Onde já se viu mexer em dinheiro meu?”, disse Pavão, durante conversa com um comparsa que estava no Brasil, captada no dia 9 de abril de 2010. Fazia pouco mais de três meses que o traficante estava no presídio Tucumbu. A conversa prosseguiu. “A parada é o seguinte: 50 contos. 50 contos aí a cabeça desse sem-vergonha”, disse Pavão. Três meses depois, o gerente foi morto a tiros no Rio Grande do Sul.
      COMBATE
      Um agente da PF vigia incineração de drogas em São José do Rio Preto, São Paulo. O orçamento de repressão ao tráfico diminuiu (Foto: Carlos Chimba)

      Mesmo atrás das grades, Pavão conseguia a façanha, segundo a PF, de enviar todo mês meia tonelada de pasta-base de cocaína para o Brasil, carga avaliada em R$ 5,5 milhões. Em comum, Pavão e Paulo Seco têm o mesmo advogado, João Manoel Armoa. Ele afirma que não há provas de que os dois sejam traficantes. “Nunca pegaram um avião do Paulo. Ele não tem patrimônio para ter movimentado esse volume, 1 tonelada de cocaína”, diz. “A condenação de 18 anos de Pavão foi à revelia pela Justiça em Balneário Camboriú, Santa Catarina. Ele é um pecuarista no Paraguai e planta soja. Não tem prova de que esteja envolvido nos crimes relatados na Operação Matriz.” Uma importante vitória judicial de Pavão ocorreu em setembro de 2010. A Justiça paraguaia absolveu seu filho, José Martinez Mendi Pavão, acusado de traficar 120 quilos de cocaína. Os três juízes que deram a sentença renunciaram ao cargo em maio passado, depois de ter sido acusados pela Justiça paraguaia de favorecer o filho de Pavão.

      Por essas situações de impunidade, o senador paraguaio pelo Partido Liberal Radical Autêntico Roberto Acevedo, de 46 anos, e seu ex-assessor Ramon Cantaluppi Arévalos afirmam estar desiludidos com a luta contra o narcotráfico no Paraguai. Eles dizem ser uma causa perdida por causa da proteção que os traficantes recebem de autoridades corruptas do país. Os dois carregam ferimentos dessa guerra. Sofreram atentados atribuí­dos a narcotraficantes. Acevedo levou um tiro no braço e outro de raspão na cabeça em abril de 2010. “Minha vida não é vida. É um cárcere. Um policial precisa levar meu filho de 12 anos para a escola”, diz o senador. Arévalos foi alvejado com 14 tiros de pistola 9 mm. Ele diz que só se salvou porque o tiro final, disparado em direção a seu coração, foi bloqueado pelo celular que levava no bolso. “A máfia do narcotráfico virou uma empresa. Encontrou um Estado muito vulnerável”, diz Arévalos. Ele perdeu a perna direita no atentado.

      Os megatraficantes também mandam na fronteira com a Bolívia. A principal cidade brasileira de entrada da cocaína é Cáceres, em Mato Grosso. O delegado federal Dennis Maximino do Ó exibe os números ascendentes de apreensão da droga. Lá, em sete anos, o volume de cocaína retida saltou de 100 quilos (2003) para 1.400 quilos (2010). A cerca de 80 quilômetros de Cáceres está a cidade boliviana de San Matías. Com ruas sem asfalto e casas com pintura descascada, destaca-se na paisagem a mansão do ex-prefeito Huber Velardi Rivero, de 47 anos. A casa ocupa quase uma quadra, com uma grande piscina escondida atrás de um muro de 3 metros de altura.


      Rivero e seu irmão Adan Ademilson podem ser chamados, segundo a Polícia Federal, de barões bolivianos do tráfico. A Procuradoria da República em Mato Grosso denunciou os dois à Justiça Federal por fazer parte de uma quadrilha com a qual foram apreendidos 913 quilos de cocaína e quase meio milhão de dólares em junho de 2009. Na época, quando Rivero ainda era prefeito de San Matías, a prisão dele e do irmão foi decretada pela Justiça Federal brasileira.

      Os mandados de prisão foram expedidos com o argumento de que há dificuldades para que acusados de crimes no Brasil sejam interrogados na Bolívia, principalmente se forem bolivianos.


      Rivero costumava se encontrar com o então governador de Mato Grosso, o hoje senador Blairo Maggi (PR), um dos maiores produtores de soja do mundo, em eventos públicos que debatiam a integração econômica entre o Brasil e a Bolívia. Rivero acabou oficialmente fora da política depois que as acusações atingiram sua imagem. Procurado por ÉPOCA, ele negou qualquer envolvimento seu e do irmão com o narcotráfico. A Procuradoria da República afirma que denunciou os dois por tráfico de drogas, mas que os mandados de prisão não estão mais em vigor.

      Somente no final do governo Lula, a Polícia Federal começou a estabelecer uma parceria mais estreita com as autoridades bolivianas. O principal resultado foi a prisão de Maximiliano Dorado Munhoz Filho, o Max, de 39 anos, em dezembro passado. Max é responsável por mandar todo mês meia tonelada de pasta-base de cocaína para o Brasil, que pode valer até R$ 9 milhões em São Paulo, diz o delegado da Polícia Federal Carlos Rocha Sanches. A prisão de Max foi uma vitória porque a Justiça boliviana determinara sua extradição para o Brasil em 2004. Ele permaneceu livre seis anos no país vizinho, ostentando alto padrão de vida em Santa Cruz de La Sierra, onde mantinha um patrimônio avaliado em até US$ 7 milhões. Pagava propina a autoridades bolivianas para não ser incomodado. A extradição não significou o fim da linha para os negócios de sua família. Seu irmão Ozzie Dorado Lozado Hanna permanece em liberdade na Bolívia.
      COMÉRCiO
      Avenida de Pedro Juan Caballero, no Paraguai, que faz fronteira com o Brasil. O tráfico movimenta US$ 100 milhões por mês na cidade (Foto: Rosane Marinho/Folhapress)

      O plantio da folha de coca na Bolívia cresceu significativamente durante o governo do presidente Evo Morales, ele próprio um ex-cocaleiro. Sob o argumento de que a folha, mascada pela população local num hábito secular, não é droga, ele anunciou em 2006 a ampliação da área plantada de 12.000 para 20.000 hectares. Hoje, ela está em 30.900 hectares. Evidentemente, quanto maior o plantio, maior a produção de cocaína. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), 66% da folha de coca boliviana, incluindo a plantada legalmente, é desviada para o narcotráfico. Pelos dados da Força Especial da Luta Contra o Narcotráfico (Felcn), principal braço antinarcóticos da Bolívia, de 70% a 90% da cocaína e da pasta-base de coca produzidas naquele país são enviadas para o Brasil. Segundo a ONU, o Brasil se tornou a principal rota de trânsito nas Américas para o envio de droga para a Europa. O número de casos que envolveram o Brasil nesse quesito subiu de 25 em 2005, somando 339 quilos de cocaína, para 260 em 2009, quando foi apreendida 1,5 tonelada de pó.

      Na contramão do aumento de apreensões, o governo Dilma Rousseff reduziu os recursos para a Polícia Federal. As associações de entidades de classe da PF (delegados e peritos) enviaram no mês passado uma carta ao Congresso, em que pedem ajuda aos parlamentares. Segundo os policiais, o Fundo para Aparelhamento e Operacionalização das Atividades-fim da PF (Funapol) sofreu um corte de 28% neste ano. Os gastos com diárias, transporte, hospedagem e alimentação de policiais em missão ou operações oficiais custeados pelo Funapol foram limitados a R$ 58 milhões, uma redução de 35% em relação ao ano passado. São justamente dessas e de outras rubricas afins, também cortadas, que saem boa parte das operações especiais de combate ao tráfico.

      Apesar da pressão da PF por mais recursos para o combate ao narcotráfico, a atual gestão da política externa brasileira tende a atenuar a gravidade do problema que representa o aumento no plantio de folha de coca na Bolívia patrocinado pelo presidente Evo Morales. Para o Itamaraty, se houve crescimento do narcotráfico e se há presença de brasileiros comprando e enviando drogas da Bolívia para cá, trata-se de uma mera questão de polícia. “A eventual participação de brasileiros em atividades ilícitas é tratada como parte de uma cooperação policial”, diz um comunicado do Itamaraty.


      Candidato derrotado no segundo turno das eleições presidenciais no ano passado, o tucano José Serra acusou o governo de Evo Morales de ser “cúmplice” e de fazer “corpo mole” contra o narcotráfico. Serra trouxe para o debate político um problema que não foi encarado com senso de urgência nem pelo ex-presidente Lula nem agora pela presidente Dilma. Eles nunca pressionaram o governo Morales a tomar providências mais enérgicas sobre a produção e a “exportação” de cocaína. Em março, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, a que a Polícia Federal está subordinada, foi à reunião da Comissão Mista Brasil-Bolívia sobre Drogas em La Paz. Cardozo aproveitou para sobrevoar a região do Chapare, na região central da Bolívia, berço político de Evo Morales e uma das zonas com maior produção de folhas de coca. Na ocasião, Cardozo anunciou a liberação de US$ 100 mil para a Bolívia aplicar na luta contra a cocaína. Quase seis meses depois, o Itamaraty informa que o dinheiro ainda não foi liberado devido à burocracia brasileira.

      No caso do Paraguai, o Itamaraty mencionou a existência de uma comissão formada por autoridades dos dois países para discutir acordos e trabalho conjunto contra o narcotráfico. A última reunião ocorreu há mais de um ano no Paraná. Em 23 anos de existência, foram realizados apenas quatro encontros. Há um fundo com US$ 5 milhões dos cofres brasileiros para ampliar a luta contra o tráfico dentro do país vizinho, mas nenhum centavo foi liberado até hoje por falta de projeto. A letargia brasileira se estende também à Venezuela. O Brasil não mantém “reuniões com autoridades de alto nível” do governo de Hugo Chávez para tratar de tráfico de drogas, informa o Ministério das Relações Exteriores. Por mais de um mês, ÉPOCA pediu informações ao Ministério da Justiça sobre as ações contra o narcotráfico. Solicitou também uma entrevista com o ministro José Eduardo Cardozo. Como num resumo da atenção que o governo Dilma dá ao combate ao narcotráfico, a assessoria e o ministro preferiram o silêncio.